terça-feira, 27 de novembro de 2012

Ditadura no ditado?




Logo quando comecei a estudar formalmente língua espanhola e a ter um contato maior com os registros linguísticos mais afeitos à educação, ouvi um verbo num determinado uso que me chamou muito a atenção. Façamos uma reflexão prévia para que em breve possamos voltar ao exemplo.

Sabemos que português e espanhol, dado seu parentesco, têm uma quantidade incrível de cognatos. Trata-se de palavras cujos significantes são praticamente idênticos. Embora as palavras se mantenham conservadas nas formas escritas, ainda assim variam bastante em pronúncias.
Já que o significante é a parte tangível de uma língua, os falantes tendem a perceber mudanças e nuanças com mais facilidade quando elas acontecem neste nível.
Contudo, quando deixamos um pouco o significante de lado e focamos no vocábulo como um todo, isto é, quando consideramos também significado e usos, notamos que as semelhanças entre português e espanhol diminuem consideravelmente.
Quanto ao sentido: há casos em que, embora etimologicamente oriundo de uma mesma raiz (ou seja: mesmo tratando-se de significantes semelhantes), algumas palavras desenvolveram sentidos cruzados em uma língua e outra, são exemplos: apelido-apellido/sobrenome-sobrenombre; classe-clase/aula-aula, entre outros.
Outro caso que engloba o sentido, e que é o preferido do público, são os falsos cognatos, como ratón/rato, salgo (de salir)/salgo (de salgar), carpeta/carpete, busetero/buceta, etc. Aqui, como acolá, o que causa confusão e graça é a importância que mais uma vez se dá ao significante, ainda que cada uma das palavras pertencentes aos pares não tenha a mesma origem etimológica. Os significados atribuídos aos significantes parecidos não se assemelham.
Em outras ocasiões, o vocábulo guarda matizes semânticos diferentes, percebidos no uso, para cada um dos idiomas. Exemplo: uma vez meu irmão brasileiro, luso-falante, fez uma reclamação ao meu pai sobre meu irmão mais novo, ambos falantes do espanhol paraguaio. Em português, o brasileiro disse: - Pai, o casula foi muito mimado. Notei que brasileiro e paraguaio, filho e pai, haviam se entendido em partes. É que o sentido luso, no português brasileiro, e o sentido hispano, no espanhol paraguaio, de “mimar” guardam uma dessemelhança tênue. Enquanto em português “mimar” pode ter o significado de “adular alguém excessivamente a ponto de deixá-lo mal acostumado”, em espanhol paraguaio “mimar” significa apenas “fazer muito carinho”. Enquanto meu irmão brasileiro queria dizer que o casula apresentava um mau comportamento devido à má criação do pai; meu pai, todo orgulhoso, estava entendendo aquilo como um elogio, já que ele se percebia como um pai excessivamente carinhoso. Exemplos desse tipo existem em abundância nos léxicos das línguas: quedar, enamorar, etc.
Nestes casos, os significantes são praticamente os mesmos e o que muda é uma parte dos significados.
O exemplo que gostaria de discutir hoje, o qual deixei em suspense logo no início deste texto, tem a ver com estes matizes semânticos que são bem percebidos quando as línguas estão em contato. Nos discursos de cada língua, o conteúdo semântico que se difere é bem sutil.
A locução que ouvi, de um professor, no espanhol da Espanha (e depois também ouvi em países latino-americanos) é:

Voy a dictar clases

A primeira vista, o falante de português ficaria horrorizado diante uma tradução capenga do tipo “palavra por palavra” de uma sentença pronunciada por um professor: Vou ditar aulas.
Seria estranho que um professor ditasse suas aulas. Seria como se ele estivesse admitindo seu autoritarismo e fizesse da sua sala de aula uma ditadura.
Aqui há dois problemas, o primeiro e o mais óbvio é que a tradução, focada no significante, é, em parte, equivocada; e o segundo é que nem sempre fica tão claro os caminhos que as palavras percorrem para chegarem em seus usos atuais (ver em português interjeições como “ave”, “nossa”, ou verbos como “judiar”, que não remetem, maioria das vezes, a “ave maria”, “Nossa Sra.” ou a “judeus”). Quando o luso-falante faz um julgamento de valor do professor hispano-falante, ele nada mais está revelando sua inabilidade em tentar ver o mundo com olhos diferentes dos que está habituado.
Junto com o espanhol, o italiano é outro idioma em que aparece “ditar” com o sentido de ensinar. Isso nos mostra que no passado da língua, “ditar” era amplamente usado como sinônimo de “lecionar”. Sem querer fazer uma inspeção mais profunda, posso afirmar que até mesmo os mais leigos perceberão os resquícios desse sentido na língua atual: “ditado, dicção, dita, etc”.
É interessante destacar que, se por um lado, é etnocêntrico avaliar o espanhol pelo julgo do português, por outro, é anacrônico, analisar os usos atuais estritamente pelo uso passado. Os sentidos que ditar tomou em português lhe permitiu uma associação maior com “ditadura” do que com “ditado”. Basta entender que espanhol e italiano percorreram outro caminho diverso ao da última flor do Lácio, pelo menos na variedade brasileira.

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