sexta-feira, 22 de julho de 2011

Resenha: Hibisco Roxo


ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Hibisco Roxo. São Paulo: Cia das Letras, 2011 [2003]. 328 pp. Trad: Julia Romeu. Título original: Purple hibiscus.



rara, com o cheiro suave de liberdade (...)
 Liberdade para ser, para fazer (p. 22)



Um romance reflexivo, Hisbisco Roxo, de Chimamanda Adichie, é narrado em primeira pessoa por Kambili, uma jovem nigeriana de classe alta.
A narrativa está divida em quatro capítulos, cuja nomenclatura gira em torno da temática principal do enredo: o catolicismo exacerbado introduzido pelos colonizadores. Os nomes dos capítulos fazem alusão ao domingo de ramos católico e narram as cenas pré, pós e durante esta data. No entanto, o enredo não é linear. Logo de início o leitor é surpreendido por uma breve cena ocorrida no domingo de ramos, o título desse capítulo é: “Quebrando deuses: Domingo de Ramos”. O capítulo seguinte, “Falando com nossos espíritos: antes do domingo de ramos”, prepara o leitor para que ele entenda a cena inicial. É o capítulo mais longo e é o principal do livro. O terceiro capítulo se intitula: “Os pedaços de deuses: após o domingo de ramos”. E o último capítulo é uma espécie de posfácio, em que Kambili nos conta as seqüelas da narrativa: “Um silêncio diferente: o presente”.
            No primeiro capítulo, caso o leitor não saiba se tratar de um romance nigeriano, não fica muito claro onde se passa a história que se vai iniciar. As primeiras descrições são bastante universais e a cena introdutória é bastante comum às dos países colonizados. Mas aos poucos o universalismo vai se delineando e temos noção mais ou menos de que conheceremos a realidade de um país africano, pois é-nos descrita uma vegetação peculiar: hibiscos roxos, plumérias, buganvílias. Também é a primeira vez que se narra uma cena de refeição: sopa onugbu com fufu, suco de caju. Serão recorrentes em todo o livro tais cenas do momento de alimentação, o que servirá para caracterizar a riqueza da família de Kambili em contraste com a pobreza do país.
Ainda neste primeiro capítulo conhecemos o núcleo familiar da jovem nigeriana: Eugene, o Papa, rico industrial e dono de um jornal progressista; Beatrice, a Mama, dona de casa e seu irmão mais velho Jaja.
Eugene, no primeiro capítulo, arremessa seu pesado missal contra Jaja, o que faz quebrar lindas estatuetas que ornam uma das estantes da sala. Eugene, que já começa a ser caracterizado como um fanático religioso, fica furioso porque seu filho deixa de receber a comunhão por dois domingos seguidos.
Á primeira vista, pareceu-me inverossímil uma descrição de uma casa tão rica e de um catolicismo tão ignorante. Mas após a leitura do capítulo principal, o segundo, tal perspectiva se desfaz.
Aos poucos, percebemos a ingenuidade de Kambili e como ela vai amadurecendo ao longo da trama. Ela é vítima de uma criação extremamente superprotetora, por parte de seu pai Eugene, o que acaba tornando-a uma menina inexpressiva. Se a história não fosse contada a partir do ponto de vista de Kambili, poderia dizer que esta seria uma personagem apática. Mas sabemos que não é bem assim. Embora Kambili seja calada e introspectiva, dentro de sua mente voa um carrilhão, é como a descreve padre Amadi, figura por quem a garota desenvolve um amor platônico.
A menina sente um respeito exacerbado por seu pai. Esse respeito, por vezes é confundido com temor. Do início ao fim, Kambili não faz o leitor sentir ódio por Papa, mesmo nos momentos mais críticos da narrativa. Pelo contrário, a garota tenta a todo custo sempre agradar a seu pai.
Eugene é um homem paradoxal, pois ao mesmo tempo em que demonstra ser extremamente altruísta, (mantém várias instituições filantrópicas, p. ex.), ele paulatinamente vai destruindo sua própria família, devido a sua tirania religiosa. Este personagem pode ser interpretado como um arquétipo da religião colonizadora. Apesar de ser muito rico, seu pai, Papa-Nukwu, vive à beira da miséria em sua cidade natal. O avô de Kambili é o arquétipo da cultura local, pouco penetrada pelo colonialismo europeu.
Eugene recusa ajudar seu próprio pai, porque este nega converter-se ao catolicismo e abrir mão de seu tradicionalismo. Desse modo, Kambili e Jaja quase não têm contato com o avô. Eles o visitam uma vez ao ano, no natal, quando a família deixa Abba e volta para sua ummuna, sua comunidade. Nesta ocasião, os netos vão até a casa do avô, levados pelo motorista Kevin, e têm o direito de permanecer não mais que quinze minutos com seu Papa-Nukwu.
A rigidez de Eugene também assombra sua esposa. Em algumas passagens não muito explícitas, parece que Eugene espanca sua esposa Beatrice. Numa delas, a mulher sofre um aborto em decorrência dos traumas. As cenas não são explícitas porque quem nos conta é Kambili, num ponto de vista muito inocente.
Eugene realmente é um pai superprotetor. Exige que seus filhos sejam sempre os primeiros colocados da turma. Caso isso não aconteça, como vemos num episódio em que Kambili fica em segundo lugar da classe, os filhos são punidos. Além disso, Jaja e Kambili devem seguir um horário rigoroso dentro de uma rotina de estudos rigorosa.
Este é o estado da arte na casa de Kambili e sua família. Mas a história começa a dar uma quinada quando os irmãos vão passar dez dias de suas férias na casa de tia Ifeoma, uma irmã de Eugene. Lá em Enugu, o casal de irmãos entram em contato com uma realidade mais próxima do país. Tia Ifeoma é uma professora universitária que vê a corrupção assolar a Nigéria. Kambili transcreve diálogos interessantes de sua tia com seus dois filhos mais velhos, Obiora, o maior, e Amaka, a questionadora. Além deles, Ifeoma, que é viúva, tem mais um filho, Chima, o caçula. Nesse núcleo, ainda aparece Amadi, um padre que consegue conciliar a cultura local à fé católica.
Ifeoma e filhos são obrigados a imigrar para os EUA, pois a universidade a despede com a desculpa de que a professora estaria envolvida em atividades ilegais, o que não é verdade. Nesse mesmo período, o padre Amadi, por quem, a esta altura, Kambili já está perdidamente apaixonada, também tem de mudar-se, já que é missionariamente transferido, numa crítica irônica ao colonialismo, para a Alemanha.
Antes disso, Papa-Nukwu fica muito doente e tia Ifeoma o traz para passar seus últimos dias junto a ela e aos netos. Neste período, Amaka pinta um quadro do avô. Kambili e Jaja passam momentos jamais vividos ao lado de seu ancestral e notam que ele, apesar de não ser cristão, também é uma pessoa boa.
Eugene, ao descobrir que seus filhos estão sob o mesmo teto de um pagão, vai pessoalmente buscá-los e surpreende-se com a morte do pai. Mesmo assim, Kambili e Jaja são brutalmente punidos. Eugene lava os pés de seus filhos com água fervente. A cena é narrada não com ódio, mas de um ponto de vista que nos faz entender que o pai só quer o bem de seus filhos.
Jaja traz mudas de hibisco roxos da casa da tia e as planta em sua casa em Abba. O quadro pintado por Amaka é dado de presente à Kambili, que o esconde a todo custo de seu punitivo pai.
A estadia na casa de tia Ifeoma transforma profundamente os irmãos. Kambili passa a ser mais extrovertida e Jaja a buscar mais sua autonomia (o que nos dá a impressão de se tratar de uma certa rebeldia).
A vida de Eugene se modifica quando Ade Coker, seu jornalista do peito, morre. Ade Coker é conhecido por fazer denúncias políticas no jornal de Eugene, o Standart. O jornalista vai preso um par de vezes e sempre é solto graças à influência de seu patrão. Coker termina seus dias vítima de uma carta bomba, que explode na mesa do café da manhã, diante de sua mulher e filhos.
Desde esse dia, Eugene parece entrar num estado depressivo e se torna ainda mais agressivo. Ao descobrir o quadro de Papa-Nukwu, dado por Amaka, e mantido escondido por Kambili, Eugene espanca a filha até o ponto de a garota desmaiar.
Kambili passa dias em coma no hospital e ao recuperar-se viaja para a casa de tia Ifeoma novamente. Diante da sociedade, o crime é disfarçado de acidente, como sempre ocorre quando Eugene agride a esposa e os filhos.
No domingo de ramos, Jaja recusa-se a comungar. E novamente Eugene demonstra sua fúria. Depois do domingo de ramos, Beatrice começa a botar veneno no chá de Eugene, que morre na mesa de seu escritório na fábrica.
Jaja assume a culpa e vai preso. Beatrice enlouquece e Kambili amadurece de vez.
Através desse romance, Adichie denuncia a situação em que se encontra uma Nigéria pós-colonial. O livro, como já disse, apesar do universalismo, capricha nos regionalismos. Adichie se recusa a reproduzir as histórias estrangeiras muito comumente lidas em seu país, A língua veicular da Nigéria é o inglês e a tradição literária do país costuma ser a de língua inglesa. Mas Adichie não faz isso. Ela descreve muito bem a paisagem nigeriana, como o título não deixa mentir. Faz uma simbiose entre as características psicológicas de seus personagens e o clima nigeriano: descreve as chuvas e os ventos do harmantan, os inúmeros por e nascer do sol; descreve os alimentos, as frutas, o ambiente rural.
A crítica ao colonialismo não se dá somente através da situação religiosa. Numa perspectiva linguística, Adichie também deixa claro que a língua do colonizador é mais prestigiada. Por vezes, Eugene repreende as pessoas por falarem inglês: “Papa quase nunca falava em igbo, embora Jaja e eu usássemos a língua com Mama quando estávamos em casa, ele não gostava que o fizéssemos em público. Precisávamos ser civilizados em público, ele nos dizia; precisávamos falar inglês” (p.20). E denuncia o ridículo linguajar forjado: “Ela falava mais igbo do que inglês, mas todas as suas palavras em inglês saíam com um sotaque britânico consistente, diferente do de Papa, que só surgia quando ele estava diante de gente branca, e às vezes, sumia em algumas palavras, de forma que metade da frase ficava com sotaque nigeriano e outra metade com sotaque britânico” (p. 256-7).
De forma irônica, como todo o livro, a autora também aponta para o racismo: “fazia as coisas do jeito certo, do jeito que os brancos fazem, não como nosso povo faz agora!” (p.74).
O mais interessante deste livro é que ela dá a conhecer ao mundo, através da literatura, uma realidade social, política e educativa da Nigéria. Desfaz o mito de que a África é única. Desfaz também o estereótipo da África como um continente miserável. A personagem principal é rica. Ifeoma é uma professora universitária e há bastante felicidade na cultura local. Se algum sentimento de piedade é evocado no leitor, este sentimento pouco tem a ver com a situação de uma Nigéria na miséria. Surge, não obstante, uma piedade de uma Nigéria esfacelada pelo contato.
Outra questão que se mostra é a preocupação da autora em lutar para que a Nigéria deixe de ser um lugar de corruptos. Através de Ifeoma, Adichie empreende uma reflexão sobre a migração aos EUA. Obiora defende a ideia de que sair do país não é uma solução: “os que estudaram vão embora, aqueles que têm potencial para consertar o que está errado. Eles deixam os fracos para trás. Os tiranos continuam reinando porque os fracos não conseguem resistir. Você não vê que é um círculo vicioso? Quem vai quebrar esse círculo?” (p. 258-9).
De maneira geral, fica evidente que Adichie escreve uma história em que os nigerianos têm vez: “existem pessoas, escreveu tia Ifeoma certa vez, que acham que nós não conseguimos governar nosso próprio país, pois nas poucas vezes em que tentamos  nós falhamos, como se todos os outros que se governam hoje em dia tivessem acertado de primeira. É como dizer a um bebê que está engatinhando, tenta andar e cai de bunda no chão que ele deve permanecer no chão. Como se todos os adultos que passam por ele também não houvessem engatinhado um dia” (p. 315)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

O problema é do feminino





O machismo está aí batendo em nossas casas há muitos séculos. A adoração ao masculino não é uma invenção da nossa sociedade e nem se originou no nosso tempo. É difícil precisar como se deu a primeira manifestação machista. Há os que digam que essa forma de poder existe desde que o homem das cavernas começou a puxar a mulher pelos cabelos. Mas não importa. O machismo é algo cultural, isso quer dizer que ele foi criado pelo homem, ainda que a retrógrada psicologia evolucionista apregoe que se trata da própria biologia humana. Por ser algo cultural, ele funciona como um efeito catraca: o homem o aprendeu em alguma etapa de sua filogênese e o foi aperfeiçoando (se é que podemos dizer que o machismo é algo perfeito). Da Grécia Antiga, da qual legamos muito da cultura, podemos ler tragédias e comédias de autores muito influentes que menosprezam a mulher, que a inferiorizam. A misoginia, cujo próprio termo é grego, é o ódio pelo feminino.

Com o passar do tempo, o machismo vai sendo transmitido culturalmente para as novas gerações e vai se modificando. A análise que faço do machismo hoje no Brasil, e talvez na América Latina, é de que ele é um tipo de misoginia. O machismo nosso hoje é uma aversão pelo feminino. 

Odiamos o feminino na medida em que exaltamos o masculino. Aprendemos que ser masculino é mais importante que ser feminino. Ser masculino é prestigioso. Também criamos toda uma concepção do que é ser feminino. Ser feminino é ser sentimental, é ser frágil, é ser sensível, entre muitas outras coisas.

Portanto, ser feminino não é apenas possuir uma vagina. Mas quem possui uma vagina sofre em dobro, porque se espera dessas pessoas um comportamento feminino. Essa forma de machismo se manifesta por todos os lados e inclusive dentro dos movimentos de minorias.  

A lesbofobia, que é a aversão por lésbicas, é um exemplo desses. Muitos gays (do sexo masculino) têm horror a lésbicas. Mas essa fobia é por causa do elemento “feminino” advinto do estereótipo daquela que possui uma vagina. No fundo, o lesbofóbico é misógino, porque tem horror ao feminino. 

O gay afeminado também vai sofrer desse preconceito dentro do próprio coletivo do qual faz parte, porque os gays não afeminados estão inseridos nessa lógica do machismo. Quase todo mundo odeia o feminino. Muitos queimarão as bandeiras cor-de-rosa. Por quê? Porque o rosa representa o... feminino. Mas o engraçado disso tudo é que os gays percebem que eles são oprimidos pela sociedade heteronormativa. Os gays percebem que o machismo os oprime. Mas eles não percebem que até eles mesmos são opressores quando lhes toca. O machismo só é percebido quando se infringe uma norma heterossexual: a de que homens se relacionam com mulheres. Contudo, o machismo não é percebido quando ele infringe uma conduta homonormativa: o de que gays devem ser masculinos. 

Os gays percebem como lhes pesa uma macrofísica do poder, mas não percebem que eles instauram uma microfísica desse mesmo poder. Recentemente saiu um vídeo chamado “Não gosto de meninos”. Eu, particularmente, não gostei muito dele, porque apesar de ser muito instrutivo, e por isso tem uma mensagem vendável, ele demonstra essa microfísica do poder. Lá pelas tantas, um dos entrevistados diz: eu achava que ser gay era ter uma postura assim (e nesse “assim”, você entende “ser bixinha”). Sabe, tudo bem de você não gostar de comportamentos afeminados. Mas, por favor, não me venha recriminar o “feminino”. 


Exatamente pelo ódio ao feminino ser uma tradição e exatamente por ser um construto social, é que podemos combater esse tipo de preconceito. Não odeie as travestis, não odeie as transexuais ou os transgêneros. Acredito que essas categorias, umas que transitam outras que transgridem as fronteiras entre o masculino e o feminino, deveriam ser as mais prestigiadas dentro da cultura gay. Porque, na maior das instâncias, são elas que derrubam e desfazem as hierarquias entre masculino e feminino e permitem que você, gay masculino, não tenha medo do armário. Por outro lado, não adianta você sair do armário, se você carrega um guarda-roupas de preconceito contra o feminino.Quando a gente começar a vencer essas barreiras dentro do grupo é, então, que poderemos falar de combate PLENO ao machismo. Reage, galera, machismo é violência.


quarta-feira, 20 de julho de 2011

Os livro ensina: nóis aprende

O blog já está até criando teia de aranha. 
Sacomé! 


Vou publicar aqui um texto que saiu em primeira mão no blog da Lola sobre a polêmica do material didático "Por uma vida melhor". O assunto já ficou velho, mas é sempre bom relembrar e deixar registrado. 

Na Idade Média (e por muito tempo depois dela), as pessoas validavam um conhecimento como verdadeiro se a igreja o confirmasse como sendo uma “verdade”. De lá pra cá, algumas coisas mudaram, porque trocamos a igreja pela universidade (bom, no caso da camisinha, a igreja ainda faz muita gente acreditar que usá-la é errado). E pudemos também relativizar cada vez mais essas verdades.
Mas, no resto, a universidade ganhou esse papel de abalizadora do conhecimento. Quantas vezes não escutamos: “segundo pesquisas da universidade X (e nesse X costuma vir o nome de alguma universidade poderosa dos EUA), a gordura TRANS faz Y (e nesse Y vem um monte de consequências ruins)”.
Por um lado, é bom que tenhamos substituído a igreja pela universidade, afinal existe todo um método científico para se desvendar o conhecimento. Mas, por outro lado, em muitos casos, apenas substituímos os velhos preconceitos por novos (ou o vestimos com uma nova roupagem). A academia também cria e legitima seus preconceitos, lembremos da psicologia evolucionista, por exemplo. 
Se antes, qualquer um que contrariasse a ideologia da igreja, iria para a fogueira, hoje isso já não acontece (acho que porque já não fazemos fogueiras humanas). O que nos diferencia de forma capital de nosso passado é que a academia também combate esses preconceitos. E as polêmicas em torno desses problemas é que fazem as ciências e as sociedades caminharem.
No entanto, esse discurso da verdade é mais ou menos heterogêneo entre as distintas ciências. Aquelas que movimentam mais capital são “mais verdadeiras” que aquelas que movimentam pouco capital. Trata-se de uma equação muito simples. Na verdade, uma ciêncianão é mais verdadeira que outra, mas os seus discursos validam mais verdades que outras. E tudo isso tem uma relação com o poder político-econômico. 
Com isso quero dizer que as ciências ditas humanas têm uma voz muito fraca na sociedade, enquanto que as ciências exatas e biológicas são as que geralmente respaldam as “verdades” do mundo.
A Linguística, que é a ciência de que me ocupo, é uma das que menos tem valor. Mas isso não se deve apenas ao fato de que ela faz circular pouco capital, como venho dizendo. Devo somar também dois outros fatores:
i) Quase ninguém sabe sobre a Linguística. O que ela é. O que ela estuda. Como ela estuda. Para que serve;
ii) A língua, que é seu objeto, está em toda parte. Todas as outras ciências são permeadas pela língua. A arte é perpassada pela língua. Tudo que é humano tem uma língua.
Então, nós, os linguistas, temos de lidar com nossa insignificância, porque não descobrimos petróleo, porque somos ignorados pela sociedade e porque qualquer um se sente apto a falar o que bem quer sobre as línguas. 
E neste último ponto reside uma polêmica. Eu acredito que todo mundo deve discutir sobre as línguas, é um exercício saudável, como veremos no caso anedótico da vez. Mas opathos deve ficar guardado.
Toda vez que alguém fala de língua (geralmente da sua língua materna), ele evoca todo um sentimento ufanista, de proteção ao seu idioma etc. 
Quase todo mundo é reacionário em matéria de língua! Quase ninguém sabe lidar com o fato de que a língua muda.

Mas por que as pessoas não conseguem ver o óbvio sobre a sua língua? De alguma forma, é porque a escola durante muito tempo as treinou para que elas não pensassem, não fossem criativas. A escola durante muito tempo só trabalhou com questões de memória. E memorizar uma gramática de normas (a gramática normativa) sempre foi, para a escola, mais fácil que observar a língua e seus usos. A gramática normativa sempre foi o escudo dos reacionários, o escudo das maiorias, o escudo do preconceito linguístico.
E agora que estamos diante de mais uma polêmica linguajeira fica evidente o quanto essa ideologia fascista, que não sabe conviver com as diferenças, é um sujeito oculto nas mentes brasileiras.
livro didático de língua portuguesa adotado pelo MEC (Ministério da Educação) é quem traz a lebre dessa vez
Armou-se o maior frisson, nos últimos dias, porque o MEC supostamente estaria propagando a mentalidade de que discutir a língua em uso é necessário. Já pensou?! Pobres das crianças, agora elas seriam obrigadas a pensar mais sobre a língua que elas usam!
Mas aí também há um equívoco: o livro, que se intitula Por uma Vida Melhor, não é destinado às crianças. Ele é adotado pelo programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA).
O capítulo “Escrever é diferente de falar” deu pano pra manga, porque as autoras mostraram as regras de funcionamento de uma variedade coloquial falada do nosso português brasileiro. Ou seja, elas fizeram as vezes de um linguista!
Ao contrário do que se anda dizendo por aí, o livro não prega que não se deva ensinar a gramática normativa ou a norma culta; pelo contrário, por meio da discussão das outras variedades do português é que se contextualiza essa norma culta. Como também sou professor de português para estrangeiros, sempre faço isso nas minhas aulas. Já pensou um estrangeiro falando como um livro? Seria muito estranho, não?
O que chama mais atenção nesse alarde todo é que a reação começa na mídia.Vocês viram como fala bonito o tal de Alexandre Garcia?
“Aboliu-se o mérito para não constranger”. Eu morro de rir com essas frases, porque é gostoso ver um reaça se afogando com a voz da ciência (esse é um dos casos em que a ciência combate um preconceito!)
Gente, se abolirem a meritocracia, o que será dos bem-nascidos? Eu tô morrendo de dó deles. Imaginem só, os negrosteriam maior acesso ao ensino superior. As mulheres poderiam ganhar um salário mais igualitário ao do homem. Os homossexuais poderiam adquirir direitos civis. E os pobres poderiam falar como falam!
Sendo assim, nada de ensinar as variedades coloquiais faladas pelo povo!

E você também poderia me refutar: ensinar um estrangeiro não é como ensinar o falante nativo. Claro que não. Não se trata de ensinar a variedade popular para o nativoAposto que essa variedade ele já aprendeu por aí! Gente, é só uma questão de inclusão, de reflexão, de contextualização da tão importante norma culta.
Lembro-me sempre nas épocas de campanha do Lula. A imprensa caía matando, porque o Lula falava “errado”: um presidente que não sabe nem falar, vai presidir o país como?
Realmente, a mídia é completamente ignorante quanto aos assuntos sobre língua. Nesse nosso caso, ela só deixa evidente qual é a sua ideologia: a das direitas conservadoras.
Para que fique claro de uma vez por todas, não existe certo e errado na língua. “Gramática” não é sinônimo de “gramática normativa”. Toda língua, toda variedade tem gramática. Toda língua, toda variedade se organiza em torno de regras. “Os menino foi” tem regras de concordâncias mais parcimoniosas que “os meninos foram”.
E onde uma é usada, onde a outra é usada? Quem as usa, em que contexto as usa? Estas seriam indagações muito mais interessantes para aquele que reflete sobre sua língua.
Pergunto novamente: por que as pessoas não conseguem entender essas obviedades todas? Eu já disse que a escola tem muito a ver com isso. Mas a sociedade também tem. Andei lendo muitas besteiras no twitter e no facebook. 
Quase todo mundo compra a ideia de “certo/errado”. Quase todo mundo achou um disparate o MEC gastar a verba publica com um livro desses. Quando o Bolsonaro também gastou grana publica para fazer a sua cartilha antigay, todo mundo também achou um disparate. Todos entenderam o seu conservadorismo. Mas é uma pena que ninguém consegue entender o conservadorismo quando se discute sobre a língua.
Até mesmo os outros cientistas, os que não são linguistas, não entendem os mecanismos da língua. Eu já vi muito intelectual falar asneiras sobre linguagem. Já presenciei muitos educadores, filósofos, cientistas políticos, sociólogos, antropólogos falarem burradas sobre as línguas. O que não tenho a dizer dos cientistas que mais movem a economia? Estes sim, estão completamente do lado da mídia ignorante.
Como o professor Sírio Possenti costuma dizer: nós, os linguistas, não nos atrevemos a fazer xampu ou a criar aviões ou a buscar a cura para o câncer. Simplesmente por que não fomos treinados para isso! Mas, por que todo físico, químico e biólogo, por exemplo, fica à vontade para arbitrar sobre línguas? Acho que eles estão acostumados com o poder. Só pode ser isso.

Mas o pior de tudo são os jornalistas, porque eles cumprem o papel de mediadores entre o senso comum e a ciência. Jornalistas não são só ignorantes, conservadores, direitoides, são mesmo incompetentes. Eles sim são os que erram no uso da gramática normativa (porque a gramática normativa é a ferramenta de trabalho deles), eles sim são os que não perdem a oportunidade do sensacionalismo, tudo a troco de ibope, de audiência e de vendagens. 
Quando a linguística ganha um pouco de voz e consegue chegar numa sala de aula, de EJA que seja, toda essa velha mídia ressurge e tenta destruir um passo gigante na democratização da cultura e da educação. Trata-se dessa mesma mídia que falta com o respeito aos profissionais da linguagem, aos professores e aos educadores. Que faz sensacionalismo com um massacre como foi o de Realengo, que acoberta um regime militar odioso, que tenta destruir o popular. Aposto que denunciar as reais mazelas da educação a velha mídia não consegue (aliás, ela só tem abafado e ocultado as greves de professores).
O que você faz com a sua língua? Chegou a hora de você pensar o que você faz com a sua língua! Você faz tudo o que gostaria? Ou faz aquilo que a mídia manda vocêfazer? Repete opressões? Repete o preconceito (linguístico)? 
A lição, em tom de clichê, é antiga: não acredite em tudo o que você lê nos jornais. Nem acredite em tudo o que você vê na televisão. Nem acredite em tudo o que você ouve nos rádios. A opinião, o achismo dos jornalistas, no caso do livro didático do MEC, falou mais alto que o fato verdadeiro. E você o que fez? O que fez com sua língua?
Ao destruir os pressupostos de um argumento, destruímos o argumento. Se a Linguística diz que não há certo e errado, como pode ser verdadeira uma notícia assim, “Livro usado pelo MEC ensina aluno a falar errado”?
Quando todo mundo começar a entender que “escrever é diferente de falar”, e entender que a língua varia e se transforma, entenderemos porque a elite reclama que sua norma já não é a única prestigiada. Tampouco precisaremos mais escrever livros que já exprimem em seus títulos um desejo do povo, na variedade do povo, num engasgo próprio do povo, que é a de uma luta “Por uma vida melhor”. 
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