segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Vestibular: essa conversa é com você

Olá, queridos leitores.
No post de hoje vou falar de um assunto bem específico, vestibular(es). Embora pareça que há pouca coisa a ver com língua e linguagem, vocês logo notarão que é através da língua que a ideologia da exclusão dos vestibulares estará materializada. É nas questões do exame, em sua forma escrita, que ela se concretiza.
O título é uma alusão a um vídeo do movimento negro que discute sobre cotas raciais para o ingresso nas universidades públicas e que se intitula "Essa conversa não é com você".
O texto de hoje é uma conversa sobre você que não vive uma realidade de exclusão social. É destinado principalmente para aqueles que fazem cursinho e aos que não passam nos vestibulares.
Com vocês:

***

ARCA QUE SÓ LEVA POMBAS

Imagine você que o mundo vai acabar. Não, melhor ainda: imagine que o mundo será devastado em um dilúvio e você é o novo Noé. Só que desta vez, você vai ter que selecionar humanos para compor o novo mundo. Você deverá escolher cada representante deste vasto rincão de modo a preservar o máximo das pluralidades.
O primeiro problema com o qual, seguramente, você vai se deparar é: o que é pluralidade? E logo perguntará: que tipo de pluralidade devo preservar? A pluralidade cultural, genética, social, de idéias, etc?
Em sua barca não caberá todo mundo. Você vai ter de escolher. Quem escolherá? Os melhores? Quem são os melhores? A grande maioria permanecerá em terra e muito brevemente os que ficaram morrerão.
Não muito adiante você vai perceber que seu critério de escolha, por mais objetivo que seja, será ideológico.
Agora, já podemos deixar de fabular, pois esta realidade está muito próxima dos brasileiros que todos os anos prestam os vestibulares para o ingresso numa universidade pública. Vestibular é o rito de passagem para a arca. Vestíbulo é a íngreme rampa que só permite a passagem de poucos. Mas a idéia de pluralidade ainda está longe de ser perpetrada.
Os vestibulares têm por objetivo, sim, selecionar os melhores. Mas, na realidade, não têm por objetivo selecionar um espectro diverso de pessoas. Ele também é um instrumento de massificação de pensamento. Além disso, quais os critérios de “melhor humano para a universidade” estão em jogo? Quem estabelece esses critérios?
Em primeiro lugar, o vestibular já exclui de cara qualquer um que não esteja na (ou acima da) classe-média. Para os que estão abaixo, se quiserem passar, terão de ter sido criados com a ideologia e prática da pequena burguesia.
Assim, os miseráveis, para os quais a educação não é um direito, estão bem distantes de uma universidade. Muitos sequer saberão sobre as universidades e pensarão que a Unicamp, por exemplo, é apenas um Hospital de Clínicas (HC). São essas pessoas que provam que a felicidade não está só em curso universitário. Para eles, a metáfora de entrada é descabida, já que o vestibular não lhes representaria o fim do mundo.
Aos que duvidam que o vestibular lima esta classe, sugiro que dêem uma olhada na prova de redação da edição de 2012 do vestibular da Unicamp. Lá, em uma das tarefas, é pedido ao candidato que escreva um verbete sobre “computação em nuvens”. Não se trata de um conhecimento muito distante da classe dos que têm fome?
Deixemo-los de lado. Não falo em nome destas pessoas. Falo em nome de você que está em condições sócio-econômicas um pouco melhores. Falo em nome de você que tem condições de pagar uma taxa de inscrição no valor de R$100,00 para concorrer a uma vaga na Unicamp (ou a você que ao menos tem acesso aos formulários de pedido de isenção, um direito que - Ah, claro – lhe poderá ser concedido se tiver nascido no estado de São Paulo).
Falo para você que pode se dedicar um ano inteiro de estudos num cursinho. Falo para você que também não pode, mas arranja um tempo, entre o trabalho e os cadernos, para estudar para o vestibular. Falo para você que mesmo não podendo nada disso, estuda num cursinho popular ou só estuda em casa solitariamente. Falo para muitos de vocês que já fracassaram em vestibulares anteriores e sentiram na pele a dor de não ter sido um dos eleitos.
Vestibular é uma guerra, é uma guerra horrível que consome tempo, juventude, dinheiro, destrói sonhos. Vestibular gera uma indústria de cursinhos carniceiros, que vêem no fracasso alheio uma oportunidade de ganhar dinheiro. Vestibular é um desserviço a educação emancipadora, democrática e formadora. Enfim, como o objetivo aqui não é falar do vestibular, contentem-se com isso: vestibular é uma guerra.
Por isso, é preciso tática e treino. Não adianta ficar o ano inteiro debulhando os mínimos detalhes de todas as matérias apenas. Faça uma pesquisa e levante uma estatística dos temas mais prováveis. Estude o vestibular e note qual é a retórica de cada um deles.
Por se tratar de uma guerra e de estratégia, mais uma vez o fator econômico é quem manda. Quem tem mais grana, quem não precisa trabalhar, quem não tem filhos para sustentar terá mais tempo para se dedicar a este irônico esforço.
Posto isso, passemos ao tópico “os critérios de seleção são ideológicos”.
Muitas pessoas pensam que o vestibular, de fato, mede inteligência. Mas, não. Ele mais deixa à mostra a ideologia da universidade (e a de quem o preparou) do que mede algo relacionado com inteligência. Ou você pensa que é um burro se não souber responder um pequeno detalhe da história ou não se lembrar de uma fórmula da Física?
Afinal, qual é a ideologia do vestibular? Ao tentar recrutar “os melhores”, a ideologia de uma seleção que se pretende justa gira em torno daquilo que seus preparadores acreditam ser “o melhor” perfil de aluno para a universidade. Eis o que a ABC (associação brasileira de cientistas) e a SBPC (sociedade brasileirapara o progresso da ciência) não me deixa mentir, para os cientistas do Brasil as universidades tem de ter autonomia para escolher o perfil de aluno que se deseja. E, obviamente, estes alunos não têm o perfil de pretos, pardos, índios e pobres.  
Além de tudo isso, a correção dos exames tem de ser prática e conseguir eliminar o máximo de candidatos, afinal são muitos para poucas vagas. Portanto, a ideologia do vestibular é baseada na exclusão. Assim, se você pestanejar, vai dançar.
Isso pode ser ilustrado através da redação do vestibular da Unicamp.
Todos sabemos (e se não sabemos, por que não sabemos?) que as redações são avaliadas em duas grades: uma específica e outra holística. Falemos, por ora, da grade específica. Ela avalia (avalia??) três pontos: a proposta, a interlocução e o gênero. A escala adotada aqui é a de tudo ou nada. Ou o candidato atende ao quesito ou não. A pergunta que cabe é: como avaliar quesitos tão sutis numa escala de tudo ou nada?
Uma das redações exigia o gênero resumo. Vejamos as instruções:   
 
Imagine-se como um estudante de ensino médio de uma escola que organizará um painel sobre características psicológicas e suas implicações no plano individual e na vida em sociedade. Nesse painel, destinado à comunidade escolar, cada texto reproduzido será antecedido por um resumo. Você ficou responsável por elaborar o resumo que apresentará a matéria transcrita abaixo, extraída de uma revista de divulgação científica. Nesse resumo você deverá:
·         apresentar o ponto de vista expresso no texto, a respeito da importância do pessimismo em oposição ao otimismo, relacionando esse ponto de vista aos argumentos centrais que o sustentam.
Atenção: uma vez que a matéria será reproduzida integralmente, seu texto deve ser construído sem copiar enunciados da matéria.



A correção levou em conta os seguintes critérios para:

         1)      Proposta: os corretores tinham de perceber se o candidato havia conseguido apresentar o ponto de vista do texto a ser resumido e deveria apresentar até dois argumentos do texto.
      2)  Interlocução: como gênero “resumo” não tem marcas de interlocução, o candidato não poderia apresentar as marcar formais de interlocução.
        3)    Gênero: uma vez que o aluno apresentasse marcas formais de interlocução, a nota em gênero seria zero.
Note que nenhum desses avisos sobre os critérios de correção são dados claramente no enunciado.
Quanto à proposta, o enunciado pede que o ponto de vista se relacione com os argumentos do texto, mas não deixa claro quantos desses argumentos são necessários, embora na correção, se o candidato apresentasse apenas um argumento ele levaria a nota zero em proposta. Quanto à interlocução, as pistas dadas pelo enunciado são a de que quem escreve é um aluno de ensino médio para a comunidade escolar. No entanto, nenhuma marca de interlocução poderia aparecer. O enunciado é confuso, pois dá pistas de que se deve marcar a interlocução, embora o aluno saiba que em um resumo a subjetividade não se manifesta tão explicitamente. E o enunciado ainda diz que se trata de um texto que vai apresentar outro e ele será fixado num painel, ou seja, dá margens para que o “eu” e o “você” apareçam.
No que diz respeito ao quesito gênero, a nota aqui estava completamente atrelada à nota em interlocução: um zero lá implicaria num outro zero aqui. Outra possibilidade de zerar em gênero é não fazendo um resumo. Você não acha estranho esses critérios, pois como se mede os limites entre um resumo e uma resenha, ou os limites entre resumo e uma paráfrase, ou entre resumo e uma síntese????
Isso tudo mostra que a grade específica é muito falha e não deveria avaliar os candidatos numa escala de tudo ou nada.
Se o candidato trouxesse o ponto de vista do texto relacionado a apenas um argumento, será que já não estaria cumprindo minimamente com a proposta? E se o candidato usasse uma marca formal de segunda pessoa de sentido genérico (ex: se você não acreditar no otimismo,.... – que pode ser sinônimo de: se se não acreditar no otimismo,...) seria ele digno de um zero em interlocução e gênero? E se o candidato começasse o texto de forma apresentativa e dialógica (ex: Olá, queridos colegas estudantes, o objetivo desta publicação é apresentar a vocês uma idéia muito interessante que saiu na revista tal. Com vocês o meu resumo) também estaria cometendo um deslize que lhe merecesse dois zeros (interlocução e gênero)? E se ainda o candidato fizesse uma resenha em terceira pessoa, isto seria considerado um resumo? Se ele trouxesse dois argumentos do texto e um argumento próprio, isso descaracterizaria o gênero resumo? E se ele apenas sintetizasse as idéias minimamente? E se ele parafraseasse tudo em questão? Por que a nota em gênero não se atrelou também a nota em proposta???
Essa problemática causa um incômodo aos corretores (que por incrível que pareça também são seres humanos subjetivos que falham), pois eles se transformam em grandes caçadores de palavras chaves. Trata-se de uma avaliação que pune ou premia o candidato que consegue explicitar (ou ocultar) determinadas palavras. A correção dessa forma, embora haja dupla correção cega, se torna exaustiva, pois ao final do dia, o corretor estará mais afiado para buscar “seus, suas, meus, minhas, senhores e senhoras” do que qualquer outra qualidade. A correção deveria ser ainda melhorada. Mais corretores deveriam ser contratados e cada um deles deveria corrigir uma quantidade muito menor de textos por dia. Apesar de que para corrigir os textos do vestibular da Unicamp seja necessário alguns cursos e um período de um mês de treinamento, além de ser necessário ter formação na área de linguagem (Letras, Linguística ou Estudos Literários), no meu ponto de vista, qualquer um que tenha recebido este treinamento tem capacidade para corrigir o vestibular (ou o Enem ou o Saresp). Para mim, um pedagogo ou um cientista social também teriam gabarito para compor a banca de correção. Afinal, já que os critérios da grade específica são tão peculiares, até uma máquina programada daria conta de “analisar” estes dados.  
Uma vez que estamos falando de qualidade, ainda existe uma segunda grade, a holística. É através dela que os corretores avaliam a qualidade dos textos. Seria a parte mais subjetiva da correção e sua escala agora se amplia para 5 pontos. Embora no treinamento seja estabelecida cada zona de nota, o corretor cansado e já experiente com todos os tipos de texto terá a sua própria maneira de avaliar a qualidade.
Como a correção é feita em duplas que não conhecem um a nota do outro, se houver mais de 2 pontos de discrepância, a redação será corrigida por uma terceira pessoa. A meu ver, se houvesse uma correção mais elaborada, nenhuma divergência deveria ser admitida.
Tomemos alguns exemplos: suponhamos que os dois corretores tenham atribuído um ponto para gênero e um ponto para interlocução, mas que um deles tenha conseguido achar um argumento e dado nota zero em proposta e o outro tenha encontrado dois argumentos e logo ter-lhe atribuído um ponto de proposta. Na holística, ambos deram nota 1. Não haverá terceira correção, o candidato terá uma nota que é a média destas duas correções. Assim, ele terá 3 e 4, que multiplicados por 3 (que é o fator que facilita os cálculos dos pontos finais, ao considerar também as questões da primeira fase), ele terá respectivamente 9 e 12, cuja média é 10,5. Isto quer dizer que a diferença que anteriormente era de um ponto, agora se transformou em 1,5. Um dado estatístico que a banca de elaboração e correção não mostra é a de que os corretores discrepam bastante em 1 ponto na grade holística, muito mais do que na grade específica. A modo de exemplificação, suponhamos que haja novamente uma divergência de 1 ponto na segunda redação. No final, a diferença cresce para 3 pontos no total das redações. Três pontos pode não parecer nada, mas será crucial para um indivíduo que está prestando o vestibular para um curso de alta demanda. A pergunta pertinente é: não convidar o indivíduo para compor a barca com base nesses cálculos é um critério de justiça? Para o vestibular da exclusão: sim.
Normalmente, os vestibulares culparão o candidato por não terem feito uma leitura adequada dos enunciados. Os elaboradores do vestibular (que por incrível que pareça também são seres humanos subjetivos que falham) costumam dizer que a prova de redação é também uma prova de leitura. Um bom exemplo de como o vestibular da Unicamp se exime de falhas pode ser encontrado na problemática questão 20 (dos cadernos Q e Z) da primeira fase do vestibular 2013:

Considerando os respectivos ciclos de vida e de reprodução, um pinheiro do Paraná pode ser diferenciado de um jequitibá pela
a) ausência de sementes e presença de flores.
b) ausência de sementes e de frutos.
c) presença de sementes e ausência de frutos.
d) presença de frutos e ausência de sementes.

A alternativa c) foi apontada como a correta. Mas o bom leitor notaria um paradoxo na forma lógica desta questão. Veja: a leitura induz que o pinheiro do Paraná pode ser diferenciado de um jequitibá pela presença de sementes. Ou seja, a resposta diz que o pinheiro do Paraná tem semente e o jequitibá não. Além disso, o pinheiro do Paraná pode ser diferenciado de um jequitibá pela ausência de frutos. Isto é, o pinheiro do Paraná não frutifica enquanto o jequitibá sim. Quando na verdade, segundo os conhecimentos da biologia, tanto uma espécie quanto a outra apresentam sementes, embora o pinheiro não tenha frutos. O problema é que o enunciado não “bateu” com as alternativas, exatamente por não possibilitar uma leitura adequada. Ou a banca esperava que o candidato lesse as alternativas de modo desvinculado do enunciado?
Se você ainda duvida deste tipo de erro de leitura da própria banca, existe outra questão nesta mesma prova que envolve problemas de elaboração. Veja você mesmo a questão 43 e me diga se é capaz de encontrar a ambiguidade.
Com tudo isso, quero dizer que uma questão de vestibular não serve para medir seu esforço ou o seu mérito. Se você passou no vestibular, não foi porque você mereceu, foi porque você se treinou e, mais ainda, foi porque você se alinhou a ideologia da prova. Mesmo que você tenha estudado a retórica do(s) exame(s) e não conseguiu passar, isso se deveu porque o vestibular é baseado na ideologia da exclusão. Posto isso, você ainda acha que estes critérios servem para selecionar os melhores? Melhor para quê? Melhor para quem?
Vestibular é elaborado por uma elite, corrigido por uma elite e seleciona os filhos da elite. Desse modo, o pensamento é cada vez mais afunilado e a diversidade requerida para uma arca do fim do mundo não é respeitada. Hey, você, que já está dentro, hey, você, que quer entrar, esse papo é com você. Vocês não acham que está na hora de alguma coisa ser feita? Vocês não acham que esse modelo excludente jamais poderia ser como uma barca? 




terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A ignorância: uma saudade distante

No post de hoje, trago uma tradução de uma indicação de leitura feita por uma amiga paraguaia, a Madeleine, que pode ser visitada aqui no seu lindo blog Melancoholia.

Made, como costumo chamá-la carinhosamente, nos recomenda nada mais nada menos que o escritor tcheco Millan Kundera em sua recente obra de 2000 intitulada "A Ignorancia".

Eis suas impressões, uma breve sinopse e uma linda passagem em que o autor fala sobre a palavra "saudade" em algumas línguas. É interessante notar que este livro desmascara o mito de que "saudade" só existe em português.

***

O eixo central deste breve romance é a "saudade", mas não qualquer saudade, mas sim a que sente aquele que se vê forçado a emigrar por motivos, dentro outros, políticos. A saudade dada aos anos que se passaram e ao confronto do período vivido fora com o período da vida das pessoas que ficaram na pátria. Confronto do que é, do que foi e do que pudesse ter sido em outras circunstâncias. Dentro de uma reflexão filosófica costumeira nos livros que li de Kundera, a comparação desta saudade dos personagens com a saudade de Ulisses e seu regresso a casa, assim como a análise linguística do termo em vários idiomas foi o que mais me cativou deste pequeno livro muito mais recomendável. 
Sinopse da  edição:
Uma mulher e um homem se encontram por casualidade quando ambos realizavam a viagem de retorno ao país do qual haviam emigrado 20 anos atrás. Poderão empreender novamente uma curiosa historia de amor iniciada na então terra natal? Acontece que, depois de tão longa ausência, suas lembranças não se assemelham. Porque nossa memória,  a pobre, o que pode fazer? Só é capaz de reter do passado uma miserável pequena parcela sem que ninguém saiba por que precisamente essa e não outra? Vivemos mergulhados num imenso esquecimento, e não queremos saber dele. Somente aqueles que, como Ulisses, voltam depois de vinte anos a sua Ctaca natal podem ver de perto, atônitos e deslumbrados, à deusa da ignorância.


Recorte:


Em grego, "retorno" se diz nóstos. Álgos significa "sofrimento". A nostalgia é portanto o sofrimento causado pelo desejo irrealizado de retornar. Para esta noção fundamental, a maior parte dos europeus pode utilizar uma palavra de origem grega (nostalgia) e, além disso, outras palavras com raízes na sua língua nacional: "añoranza", dizem os espanhóis; "saudade", dizem os portugueses. Em cada língua, estas palavras possuem um matiz semântico diferente. Muitas vezes significam apenas a tristeza causada pela impossibilidade do regresso ao país. Recordação dolorosa do país (Morriña del terruño). Recordação dolorosa do lugar (Morriña del hogar). O que, em inglês, se diz: homesickness. Ou em alemão: Heimweh. Em holandês: heimwee. Mas trata-se de uma redução espacial da grande noção. Uma das mais antigas línguas europeias, o islandês, distingue bem os dois termos: söknudur, nostalgia no sentido geral; e heimfra: recordação dolorosa do país. Os checos, a par da palavra nostalgie vinda do grego, têm para a noção o seu próprio substantivo, stesk, e o seu próprio verbo; a mais comovente expressão de amor checa: styska se mi po tobe: "tenho nostalgia de ti"; "não posso suportar a dor da tua ausência". Em espanhol, añoranza vem do verbo añorar (ter nostalgia), que vem do catalão enyorar, derivado, por seu turno, da palavra latina ignorare (ignorar). A esta luz etimológica, a nostalgia aparece como o sofrimento da ignorância. Tu estás longe, e eu não sei o que te acontece. O meu país está longe, e não sei o que se passa lá. Certas línguas têm algumas dificuldades com a nostalgia: os franceses só pode exprimi-la por meio do substantivo de origem grega e não têm o verbo para ela; podem dizer je m´ennuie de toi, mas o verbo s´ennuyer é fraco, frio e seja como for demasiado ligeiro para um sentimento tão grave. Os alemães raramente utilizam a palavra "nostalgia" na sua forma grega e preferem dizer Sehnsucht: desejo do que está ausente; mas Sehnsucht pode visar de igual modo tanto o que foi como o que nunca foi (uma nova aventura), e, por isso, não implica necessariamente a ideia de um nóstos; para se incluir na Sehnsucht a obsessão do regresso, seria preciso acrescentar um complemento: Sehnsucht nach der Vergangenheit, nach der verlorenem Kindheit,  ou nach der resten Liebe (desejo do passado, da infância perdida, do primeiro amor).

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Ditadura no ditado?




Logo quando comecei a estudar formalmente língua espanhola e a ter um contato maior com os registros linguísticos mais afeitos à educação, ouvi um verbo num determinado uso que me chamou muito a atenção. Façamos uma reflexão prévia para que em breve possamos voltar ao exemplo.

Sabemos que português e espanhol, dado seu parentesco, têm uma quantidade incrível de cognatos. Trata-se de palavras cujos significantes são praticamente idênticos. Embora as palavras se mantenham conservadas nas formas escritas, ainda assim variam bastante em pronúncias.
Já que o significante é a parte tangível de uma língua, os falantes tendem a perceber mudanças e nuanças com mais facilidade quando elas acontecem neste nível.
Contudo, quando deixamos um pouco o significante de lado e focamos no vocábulo como um todo, isto é, quando consideramos também significado e usos, notamos que as semelhanças entre português e espanhol diminuem consideravelmente.
Quanto ao sentido: há casos em que, embora etimologicamente oriundo de uma mesma raiz (ou seja: mesmo tratando-se de significantes semelhantes), algumas palavras desenvolveram sentidos cruzados em uma língua e outra, são exemplos: apelido-apellido/sobrenome-sobrenombre; classe-clase/aula-aula, entre outros.
Outro caso que engloba o sentido, e que é o preferido do público, são os falsos cognatos, como ratón/rato, salgo (de salir)/salgo (de salgar), carpeta/carpete, busetero/buceta, etc. Aqui, como acolá, o que causa confusão e graça é a importância que mais uma vez se dá ao significante, ainda que cada uma das palavras pertencentes aos pares não tenha a mesma origem etimológica. Os significados atribuídos aos significantes parecidos não se assemelham.
Em outras ocasiões, o vocábulo guarda matizes semânticos diferentes, percebidos no uso, para cada um dos idiomas. Exemplo: uma vez meu irmão brasileiro, luso-falante, fez uma reclamação ao meu pai sobre meu irmão mais novo, ambos falantes do espanhol paraguaio. Em português, o brasileiro disse: - Pai, o casula foi muito mimado. Notei que brasileiro e paraguaio, filho e pai, haviam se entendido em partes. É que o sentido luso, no português brasileiro, e o sentido hispano, no espanhol paraguaio, de “mimar” guardam uma dessemelhança tênue. Enquanto em português “mimar” pode ter o significado de “adular alguém excessivamente a ponto de deixá-lo mal acostumado”, em espanhol paraguaio “mimar” significa apenas “fazer muito carinho”. Enquanto meu irmão brasileiro queria dizer que o casula apresentava um mau comportamento devido à má criação do pai; meu pai, todo orgulhoso, estava entendendo aquilo como um elogio, já que ele se percebia como um pai excessivamente carinhoso. Exemplos desse tipo existem em abundância nos léxicos das línguas: quedar, enamorar, etc.
Nestes casos, os significantes são praticamente os mesmos e o que muda é uma parte dos significados.
O exemplo que gostaria de discutir hoje, o qual deixei em suspense logo no início deste texto, tem a ver com estes matizes semânticos que são bem percebidos quando as línguas estão em contato. Nos discursos de cada língua, o conteúdo semântico que se difere é bem sutil.
A locução que ouvi, de um professor, no espanhol da Espanha (e depois também ouvi em países latino-americanos) é:

Voy a dictar clases

A primeira vista, o falante de português ficaria horrorizado diante uma tradução capenga do tipo “palavra por palavra” de uma sentença pronunciada por um professor: Vou ditar aulas.
Seria estranho que um professor ditasse suas aulas. Seria como se ele estivesse admitindo seu autoritarismo e fizesse da sua sala de aula uma ditadura.
Aqui há dois problemas, o primeiro e o mais óbvio é que a tradução, focada no significante, é, em parte, equivocada; e o segundo é que nem sempre fica tão claro os caminhos que as palavras percorrem para chegarem em seus usos atuais (ver em português interjeições como “ave”, “nossa”, ou verbos como “judiar”, que não remetem, maioria das vezes, a “ave maria”, “Nossa Sra.” ou a “judeus”). Quando o luso-falante faz um julgamento de valor do professor hispano-falante, ele nada mais está revelando sua inabilidade em tentar ver o mundo com olhos diferentes dos que está habituado.
Junto com o espanhol, o italiano é outro idioma em que aparece “ditar” com o sentido de ensinar. Isso nos mostra que no passado da língua, “ditar” era amplamente usado como sinônimo de “lecionar”. Sem querer fazer uma inspeção mais profunda, posso afirmar que até mesmo os mais leigos perceberão os resquícios desse sentido na língua atual: “ditado, dicção, dita, etc”.
É interessante destacar que, se por um lado, é etnocêntrico avaliar o espanhol pelo julgo do português, por outro, é anacrônico, analisar os usos atuais estritamente pelo uso passado. Os sentidos que ditar tomou em português lhe permitiu uma associação maior com “ditadura” do que com “ditado”. Basta entender que espanhol e italiano percorreram outro caminho diverso ao da última flor do Lácio, pelo menos na variedade brasileira.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A língua guarani frente as demais línguas do Mercosul ou O guarani de um Paraguai globalizado


Com a atual situação política anti-democrática pela qual o Paraguai está passando, o país foi excluído temporariamente do Mercosul. Isso tem um importante significado no giro do carrossel do (des)prestígio linguístico do guarani.
Este é um texto que fiz circular em 2007-2008 na Jornada de Jóvenes Investigadores de la AUGM, que teve lugar em San Lorenzo, Paraguai, e no I Encontro sobre Linguagem e Exclusão, em Campinas. 








RESUMO: Este artigo compartilha de uma reflexão feita por Rajagopalan (2003) ao admitir que as identidades lingüísticas na atualidade estão muito comprometidas pelas influências estrangeiras, graças ao processo de globalização característico do mundo pós-moderno. Nesse sentido, faço uma ronda em torno do guarani paraguaio e discorro em que medida a identidade lingüístico-cultural paraguaia se manifesta numa relação de um Paraguai que está em contato com, pelo menos, os vizinhos do Mercosul. Levanto, por conseguinte, questões sobre o que significa a oficialização do idioma indígena como língua do bloco. É o guarani uma língua mercantilizada como o são o espanhol e o português na América do Sul? Qual o interesse acadêmico e até mesmo do senso comum em conhecer a cultura paraguaia para além dos estereótipos? Por que os órgãos oficiais, como as secretarias de cultura, interessam-se pela difusão das culturas sul-americanas? O Paraguai, declaradamente mestiço, é o país exótico do cone sul? E o prestígio da língua paraguaia, mestiça por conseqüência, tem relação direta com o (des)prestígio de poder político-econômico do país frente a globalização? Estas são algumas das questões esboçadas, nem sempre respondidas, no artigo que aqui se apresenta.





“... as línguas não são meros instrumentos de comunicação,
como costumam alardear os livros introdutórios.
As línguas são a própria expressão das identidades de quem delas se apropria”
(RAJAGOPALAN, 2003, p. 69)

“A língua é muito mais que um simples código ou um instumento de comunicação.
Ela é, antes de qualquer outra coisa, uma das principais marcas de identidade de uma nação, um povo.
Ela é uma bandeira patriótica”
(RAJAGOPALAN, 2003, p.93)

Introdução

Durante a XXIII Reunião de Ministros da Cultura, realizada no dia 21 de novembro de 2006, na cidade do Rio de Janeiro, adotou-se o idioma guarani como uma das línguas oficiais do Mercosul:
Conscientes do relevante valor das línguas no campo simbólico da cultura, os Ministros e Ministras declaram o Guarani como língua oficial do MERCOSUL, assinalando o caráter emblemático dessa consideração que remete à enorme riqueza e variedade das línguas dos povos originários da região[1]
Embora a atitude seja louvável, ela é tardia. Por que o guarani torna-se língua oficial apenas 15 anos depois da assinatura do tratado de Assunção? A resposta pode parecer simples, mas ao elucidá-la, podemos revelar toda uma relação de (des)prestígio não apenas lingüístico, senão político-econômico da nação paraguaia e suas línguas, frente às demais nações, línguas e dialetos do bloco.
Em termos de língua, o guarani é caracterizado por sua oscilação em função do tempo quanto ao seu prestígio. Como se verá nos tópicos seguintes, o fato histórico Mercosul é apenas mais um movimento de sobe e desce desse carrossel em que o idioma indígena se encontra. Justamente por se tratar de uma língua cuja história é repleta de descaso e sucesso, o guarani é ainda uma língua viva e oficial de um país, visto que seus obstáculos são superados com momentos de prestígio que acabaram por fortalecer momentaneamente a língua.

Breve histórico do prestígio e desprestígio da língua guarani

O Paraguai foi um país que experimentou, assim como o Brasil, a ação dos missionários durante a colonização. Em 1580 chegaram os franciscanos e logo posteriormente os jesuítas. Estes últimos, sobretudo, implementaram o sistema de reduções.
De maneira bastante resumida, a situação sócio-cultural da colônia, segundo Melià (1992), podia ser simplificada em:
a)                las ciudades de españoles, donde, sin embargo, se hablaba guaraní, por lo común.
b)               los pueblos de indios, al norte del río Tebicuary, regidos por clérigos y franciscanos, donde el guaraní era también la  lengua ordinaria.
c)                los pueblos de las Misiones jesuíticas, donde estaba creándose un nuevo lenguaje y una nueva lengua (p. 33)
Tal estrutura permitiu que o guarani gozasse de um longo período de prestígio – era a moeda básica de troca entre todos os estamentos da colônia -, praticamente o idioma desfrutou desse estatuto até a saída dos jesuítas do território, no século XVIII. A permanência dos religiosos não apenas permitiu que a voz indígena fosse a que prevalecesse no período colonial, como também fez com que ela ecoasse até os dias de hoje, contribuindo em muito como reflexo da formação histórico-social do país:
A realidade do guarani constitui uma situação particular quando pensamos nas relações estabelecidas entre as noções de civilização e cultura nos discursos sobre a história latino-americana.  A civilização na América Latina – no sentido de constituição de cidades (civitas) atuais a partir de modelos urbanos europeus–, coincide com o apagamento das culturas locais, indígenas, consideradas não civilizadas – no sentido de não-evoluídas (inferiores).  Essa polissemia do termo civilização, tal como mobilizado nos discursos da (sobre a) colonização, produz uma confluência característica na compreensão dessa realidade cultural e urbana.  Civilizado é ao mesmo tempo evoluído (superior) e urbano, estando as culturas indígenas excluídas de ambos os sentidos do termo.  Isto é, as culturas (línguas) indígenas, por serem consideradas não-civilizadas (primitivas, inferiores), são excluídas da civilização (constituição de cidades).
 Esse não parece ter sido o caso no Paraguai, onde o guarani permanece até hoje não apenas como língua do campo (onde seu predomínio sobre o espanhol é absoluto em todas as regiões do país), mas também como língua das cidades e da capital, sendo sua presença muito evidente tanto nas conversas de rua como nos meios de comunicação, tendo sido inclusive incluído, como mencionado, no âmbito mais formal do discurso jurídico – administrativo, ao ter sido instituído como língua de Estado (RODRÍGUEZ-ALCALÁ, 2002).
            Podemos considerar que o fato de o guarani ser praticado nos tempos dos jesuítas - um guarani que não corresponde ao atual, mas que é sua fonte – esse ato foi o primeiro ápice – o desencadeador - na metáfora do carrossel do prestígio lingüístico.
            Melià[2] relata que, inclusive, às vésperas da Proclamação da República, documentos eram redigidos em idioma índio. “Cuando el general Manuel Belgrano en 1810, en vísperas de la Independencia, dirigía proclamas y cartas en guaraní a las autoridades del Paraguay y a su pueblo, lo hacía a sabiendas de que ésta era su lengua propia” (p. 157).
A Independencia, em 1811, realizada pela “oligarquía criolla terrateniente y militar”[3] – nem 100 anos após a saída dos jesuítas em 1768 - elevou ainda mais o prestígio do guarani. Tal período durou até 1840 – morte de Francia – e teve seu cume durante o período de ditatura, 1814 -1840, instaurado pelo já mencionado Gaspar Rodríguez de Francia. Melià[4] alega que durante a ditadura o processo de banimento do castelhano se radicalizou:
Hechos como la supresión del Real Colegio Seminario de San Carlos, en 1822, y la secularización de todas las órdenes religiosas, afectaron muy directamente a las posibles élites culturales. Se puede afirmar que a partir de la década de 1820-1830, solamente es representativa del Paraguay la denominada gente rei, es decir, ‘el pueblo común’, según el análisis histórico de R. E. Velázquez (1976). Los grupos sociales con capacidad e interés por emplear la lengua castellana, como podía ser la burguesía comercial y la oligarquía terrateniente, heredera de encomenderos y ‘comuneros - menos éstos que aquéllos – fueron reducidos a callarse, cultural y políticamente (Granda, 1988: 544) - (p. 159)
            Pouco se sabe sobre a educação escolar no período de Francia (MELIÀ).
El alcance real que haya podido tener la escuela en tiempos del doctor Francia es hasta hoy un asunto mal conocido, que suscita opiniones encontradas. (...) Pero hacia 1834 el Estado sólo sostenía a 150 maestros que enseñaban a unos 5000 alumnos. (…) Lo que en estas escuelas se enseñaba era un curioso catecismo llamado ‘patrio reformado’, cuyo texto, por lo menos tal como se ha conservado, estaba en castellano (p. 165)
            Melià faz referência também a uma biblioteca de Francia (repleta de títulos castelhanos), mas conclui que tais dados sobre o espanhol são mais anedóticos que efetivos no que diz respeito à situação lingüística do Paraguai nessa época.
            É somente após a morte de Francia, e com ela o fim de sua ditadura, que se dá início ao processo concreto de castelhanização do Paraguai. Seu sucessor e sobrinho, CarlosAntonio López, ficou conhecido, em se falando da língua e cultura guarani, por “no haberse interesado por la cultura guaraní” (p. 166). Há relatos publicados tanto por Melià (1992) quanto por Rubin (1968) de que inclusive a língua guarani havia sido perseguida na escola durante o governo de Carlos Antonio López.
            Tal político também ficou conhecido por conceder cidadania aos índios. Mas vale lembrar que tal fato, do ponto de vista (político)lingüístico, pouco tem de glorioso, glória que costuma ser exaltada em qualquer bibliografia sobre López (pai). Conceder a cidadania aos índios não mais foi que uma tentativa de castelhanizar uma cultura indígena. Em 1848, ele extinguia o regime de comunidades, o que desfez as cidades dos índios e acabou com o uso dos sobrenomes guaranis (MELIÀ, 1992).
Castellanizada de palabra, esta gente seguía tan guaraní como antes en la palabra. Ahora traían un nombre español, habían dejado de ser ‘indios’, pero hablaban en guaraní. De este modo un grupo considerable de indígenas, hablantes en guaraní, se incorporaba a la masa de los ‘paraguayos’, con lo que se cerraba un proceso que ya se había iniciado con fuerza cuando muchos guaraníes de las Misiones jesuíticas, salidos de sus pueblos, habían pasado a las ciudades de españoles o se habían conchabado como peones en las estancias (p. 167-168)
Da saída dos jesuitas (1768) até a morte de Carlos Antonio López (1862), podemos encontrar uma oscilação completa de nosso carrossel: um grande momento de prestígio seguido de outro de desprestígio. Mas antes de mencionarmos o mundo da globalização atual e a oficialização do idioma guarani no Mercosul, ainda teremos de dar pelo menos mais um giro em nosso lúdico brinquedo.
No governo seguinte, o do filho de Carlos Antonio, Francisco Solano López, talvez um dos nomes históricos mais lembrado pelo povo paraguaio, o idioma guarani volta a ser idioma prestigiado.
A guerra contra a Tríplice Aliança – Argentina, Brasil e Uruguai – transforma Solano López em herói nacional e a língua guarani em característica de orgulho da nação paraguaia. O clichê de que a língua pode funcionar como bandeira do país é exemplificado pelo caso paraguaio mediante suas guerras.
La guerra de 1864 e 1870 se nutrió con la sonora armonía del idioma autóctono. […] El drama hondo y terrible, la tragedia singular de aquella época los sufrió, así, el pueblo paraguayo, en guaraní. Era la lengua en que lloraban las mujeres de la ‘residenta’ y en la que odiaban y peleaban los varones de nuestra tierra (CENTURION, 1947, apud MELIÀ, 1992)
O segundo giro se completa exatamente no período posterior à guerra do Paraguai, finda em 1870, com nova perseguição contra o guarani em favor da castelhanização.
A Argentina teve papel fundamental nesse novo período, o país vizinho havia exterminado grande parte das culturas de substrato e de lá provinha a ideologia de que o castelhano era o elemento civilzador necessário para aplacar o uso do guarani. Melià arrola dados interessantes sobre como o pensamento argentino se traduzia para a realidade paraguaia, dentre eles, o fato de muitos dos professores do Paraguai pós-guerra terem completado sua educação na Argentina e o fato de que as pessoas circulavam de um país ao outro. Nesse intercâmbio, chegou ao Paraguai, em 1887, Domingo Faustino Sarmiento, um político e educador famoso naquele período, segundo Melià. Como bem resume Alcalá-Rodrigues na citação há pouco transcrita, o elemento indígena está relacionado ao primitivo e não-civilizado (discurso presente inclusive nos dias de hoje).
Uma vez que a intelectualidade paraguaia, inserida no contexto mundial progressita, tomava para si a ideia de que o guarani estava para o retrocesso e o castelhano para o progresso, a escola, os jornais e os documentos oficiais se enchiam do discurso de repúdio ao guarani.
Mas a guerra do Chaco (1932 a 1935), de certa forma, ameniza, mas não interrompe, tal discurso. Mais uma vez o guarani se transforma em motivo de orgulho e em estratégia de guerra.
Na segunda metade do século XX, marcada pela ditatura de Stroessner (1954-1989), a história do (des)prestígio guarani é ainda mais complexa e ambígua. Surgem órgãos de apoio ao guarani, publicações, criação de revistas, decretos etc (MELIÀ, 1992).
La disposición legal más significativa de la época no deja de ser la que consta en la Constitución de 1967, con su art. 5°: ‘Los idiomas nacionales de la República son el guaraní y el español. Será de uso oficial el español’. Y en su art. 92: ‘El Estado fomentará la cultura en todas sus manifestaciones. Protegerá la lengua guaraní, y promoverá su enseñanza, evolución y perfeccionamiento’ (MELIÀ, 173)

Quanto às mudanças educacionais, Melià lembra que um conjunto de fatores possibilitou que se começasse a pensar pela primeira vez num estudo mais sistemazidado do idioma. Em 1962, cria-se o Instituto de Lingüística Guarani, em 1971 o Bacharelado em língua guarani. Três anos depois surge também a cartilha “Ko’êñ” (Amanhecer), fruto de “experiencias de educación alternativa en ‘escuelitas campesinas’” (p. 174). O alcance do ensino do guarani só ganharia força depois da década de 1990, quando, de fato, a escola incorpora a disciplina das línguas maternas, i.e. também o guarani, no currículo obrigatório. Antes disso, “la enseñaza sistematizada del guaraní tiene en el Paraguay una historia de altibajos, que refleja tanto problemas propiamente pedagógicos como indecisión y ambigüedad política” (p. 174)
Com a nova Constituição de 1992, o guarani se torna língua oficial, como ressalta Melià (p.175):
De los idiomas

Artículo 140. El Paraguay es un país pluricultural y bilingüe.
Son idiomas oficiales el castellano y el guaraní.
La ley establecerá las modalidades de utilización de uno y otro.
Las lenguas indígenas, así como las de otras minorías, forman parte del patrimonio cultural de la Nación

A construção dos discursos em torno do guarani

De modo bastante rápido, através da resenha de Melià (1992), fizemos um apanhado histórico sobre o vai-e-vem do guarani dançante no carrossel do (des)prestigio (sócio-econômico-político) lingüístico.
Vimos que a oficialização do guarani como língua nacional[5] também foi tardia e se deu a custa de muitas voltas e reviravoltas históricas. À medida que cada ciclo se completava um novo discurso sobre o guarani surgia: em momentos de glória, o discurso que predominava era o de orgulho[6] – o guarani enquanto símbolo e bandeira do Paraguai. Em tempos de perseguição, o guarani era acusado como o culpado pelo atraso paraguaio. Mas esse atraso somente aparece depois da Guerra do Paraguai e que foi ocasionado, como bem sabemos, pela destruição massiva do país. A mesma língua que fracassou no campo de batalha na Grande Guerra foi vitoriosa na Guerra do Chaco.
Enfim, na confluência desses dois principais discursos sobre o idioma guarani - um de orgulho e outro de retrocesso – é que se encontra o Paraguai atual e a realidade com a qual se depara o Mercosul.

O que significa o guarani como língua oficial do Mercosul?

No Paraguai de hoje tenta-se adotar uma planificação lingüística que valorize e proteja o idioma guarani, como medida que reconhece o multiculturalismo da nação e assume o passado histórico de formação do país. O guarani, juntamente com o castelhano, é ensinado na escola para todos os níveis.
Dentre os países da América do Sul, sobretudo os membros do Mercosul, nenhum tem uma situação como a paraguaia em que a língua indígena se tornou língua majoritária. Nesses países predominou a língua européia imposta e que substituiu as nativas – ou as trazidas da África - (pelo menos em prestígio). O mesmo processo que impôs o latim à península ibérica foi o que obrigou o falar português-espanhol, sobretudo, cá na América, mais especificamente no cone sul-sul: o processo da expansão territorial. A globalização, tal qual nos moldes atuais, começada em tempos romanos e modificada na história transformou línguas em mercadorias. E no Mercosul o estado da arte não é diferente, a mercantilização das línguas, tal como menciona Rajagopalan (2004), faz do espanhol uma boa pedida para os brasileiros e do português o diferencial dentre aqueles que têm como língua materna o espanhol.
O ensino de língua portuguesa e espanhola como línguas estrangeiras é crescente no Mercosul. Mas esse processo ainda não atingiu o guarani. Cursos de guarani como língua estrangeira não são anunciados em outdoors no Brasil, na Argentina ou no Uruguai, nem existem escolas especializadas, fora do Paraguai, para ensinar o idioma. Por que as pessoas não se interessam em aprender o idioma guarani, já que é ele “tão” oficial “quanto” o português e o espanhol? Aliás, qual o real interesse do senso comum na cultura paraguaia? No Brasil, sustenta-se o mito de que a terra é apenas lugar de falsificação e muambas.
O guarani, penso, como língua oficial do Mercosul, às vezes, não passa de um ato alegórico na tentativa de minimizar a perseguição e massacre indígena que foi recorrente em toda a história da América Latina, como bem vimos exemplificada na resenha acima.
Enquanto produto, o guarani não é interessante e não convém vendê-lo para além das fronteiras guarani. A que esse desinteresse se deve? Ao fato de que no Paraguai há a língua espanhola que supre muito bem essa comunicação com as demais nações do bloco? Ou ao desinteresse mesmo pela cultura do país?
Esperamos manifestamente que as decisões e propostas presentes na ata da XXIII Reunião de Ministros da Cultura do Mercosul, mesma reunião que oficializou o guarani como idioma do bloco, sejam postas em prática.
O discurso oficial agora com que depara aqueles discursos formadores da nação paraguaia, sobre o qual falamos no tópico anterior, é oposto à crença de que a cultura nativa é inferior:
Os Ministros, Ministras e as Autoridades Máximas presentes à reunião:
Consciente das forças das expressões simbólicas de suas culturas;
Convictos de que, para a construção de uma cultura de paz da qual sejam beneficiados todos os povos, é necessário proteger e promover a diversidade cultural;
Desejosos de que a Cultura seja reconhecida como força propulsora do desenvolvimento, devendo estar entre as preocupações centrais das agendas do Governo de seus países, tal como estabelecida na Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1948;
Sabedores de que o papel do Estado é criar condições para que a sociedade seja protagonista e beneficiária dos processos culturais, de modo a usufruir da qualidade de vida desejada por todos e lograr a plena realização de suas potencialidades humanas;
Receberam (...)[7] (Grifos meus)
            Os Ministros(as) “concordam que é necessário conhecer as características do setor cultural em cada país”, “manifestam a importância de incentivar o intercâmbio de experiências das pessoas ligadas a área cultural, bem como de bens, serviços e conteúdos culturais” e “congratulam o Paraguai por ter aprovado a Ley Nacional de Cultura nº 3051[8], que cria a Secretaria Nacional de Cultura como órgão de nível ministerial”[9]
            Esperamos que o Paraguai, com tal Lei, contribua na divulgação de sua própria cultura e que a Secretaria não seja apenas mais um órgão público caracterizado pelo comodismo. Esperamos das demais nações o (re)conhecimento de uma cultura de que a história muitas vezes é compartilhada.
            Mas sabemos que a esperança não deve se projetar apenas sobre as instâncias oficiais do bloco, deve-se ter em consideração que a visão do senso comum é um construto que leva gerações para ser modificada e que talvez nunca se modificará.
            Diante de tudo que foi discutido, ainda resta uma dúvida: a oficialização do guarani como língua do Mercosul é um fato de que devemos nos honrar? Afinal ela coroa a desigualdade lingüístico-cultural do Paraguai frente seus aliados.

Referências Bibliográficas


DECLARAÇÃO SOBRE A INTEGRAÇÃO CULTURAL NO MERCOSUL publicado em 24/11/2006. Acessível em: http://www.cultura.gov.br/mercosur/?p=57


LEI NACIONAL DE CULTURA Nº 3051. http://www.cultura.gov.br/mercosur/wp-content/uploads/2007/05/paraguay_ley_nacional_cultura.pdf  (Último acesso 25/07/2008)

MELIÀ, B. La lengua guarani del Paraguay: historia, sociedad y literatura. Madri: Mapfre, 1992

RAJAGOPALAN, K. Línguas nacionais como bandeiras patrióticas, ou a lingüística que nos deixou na mão: observando mais de perto o chauvinismo lingüístico presente no Brasil. In: LOPES DA SILVA, F., RAJAGOPALAN, K. (orgs.) A lingüística que nos faz falhar: investigação crítica. São Paulo: Parábola, 2004.

RODRÍGUEZ-ALCALÁ, C. O sentido público no espaço urbano: a questão da língua. 2002. Disponível em: http://www.unicamp.br/iel/hil/publica/relatos_07.html (Último acesso: 25/07/2008)

RUBIN, J. National Bilingualism in Paraguay. Haia: Mouton, 1968.



[1] DECLARAÇÃO SOBRE A INTEGRAÇÃO CULTURAL NO MERCOSUL

publicado em 24/11/2006. Acessível em: http://www.cultura.gov.br/mercosur/?p=57
[2] op. cit.
[3] op. cit.
[4] op. cit.
[5] E sobre o assunto muito bem disserta Zuccolillo (2000)
[6] Rubin (1968). National Bilingualism in Paraguay
[9] Ver nota 7

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