quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Em convite: Extrapolando a visibilidade trans*: quem são as pessoas cis?


O texto de hoje é assinado pela Bia, é uma reflexão sobre o dia da Visibilidade trans, que é hoje, 29 de Janeiro.
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Quando falamos, ouvimos, lemos, escrevemos as palavras “homem” ou “mulher”, o que primeiro nos veem a mente? Quando encontramos esses termos nos jornais, telejornais, revistas, artigos, em programas de rádio ou em qualquer outro gênero discursivo (os diferentes “tipos” de textos ou formas de textos) o que eles querem representar? Quais sujeitos essas palavras referenciam no mundo? Certamente, um homem ou mulher “padrão” (a primeira imagem que nos veem a cabeça quando nos deparamos com esses termos) são, respectivamente, aquela pessoa que ao nascer, for designada como homem e como mulher a partir da identificação da morfologia genital. Então por que estou falando disso em 29 de janeiro, dia da visibilidade trans*? Porque pra gente entender a visibilidade trans*, precisamos primeiro entender quem são as pessoas não-trans*, as pessoas cisgêneras.
                Você provavelmente pode estar sentido algum tipo de desconforto (ainda mais se for uma pessoa cisgênera). Afinal de contas, que história é essa de pessoas que foram designadas com um gênero ao nascimento e que são cisgêneras? O que é isso afinal, que estranhamento é esse? As pessoas não simplesmente “nascem” homem ou mulheres e esse fato depende da existência objetiva de determinado sexo biológico?
                Não é tão simples assim. Pessoas transgêneras são aquelas cuja identidade atribuída ao nascimento não condiz com os seus sentimentos subjetivos e identidade de gênero. Ou seja, uma mulher trans* é aquela entendida socialmente como uma “pessoa nascida homem que quer virar/ser mulher” (e vice-versa para homens trans*). O movimento transfeminista, no entanto, irá problematizar a ideia de que alguém (não apenas pessoas trans*) nasça homem ou mulher. Inclusive irá apontar para a existência de vivências
que fogem do binário homem-mulher, o que chamamos de pessoas trans* não binárias. O transfeminismo, influenciado pelas discussões feministas, dos teóricos de gênero e da teoria queer, irá entender gênero de forma bastante distinta da usualmente usada pelo senso comum. Como dito anteriormente, o conceito de gênero/sexo é comumente tido como algo da ordem do natural, do biológico. Assim, supostamente as pessoas poderiam afirmar, através de evidências físicas/biológicas, sobre o gênero de alguém. É então que essa verdade, tão legitimada pela sociedade, é profundamente questionada, ao apontarmos que existem pessoas beneficiadas por esse sistema e outras que são marginalizadas.
                O gênero é agora entendido como uma construção social. Isso significa que não podemos entender o que seja gênero se não concebemos como os conceitos sobre “feminino” e “masculino” funcionam dentro de uma cultura. Isso significa apontar para como são acionados esses termos em relações de dominação. O feminismo historicamente vem denunciando a dominação das mulheres (cisgêneras) através da misoginia e machismo. Isso significou entender que antes de descrever verdades objetivas sobre sexo ou gênero, existiam formas de se compreender as mulheres como inferiores. O transfeminismo, mais recentemente, levando junto todo esse histórico de luta feminista, visa entender agora como pessoas trans* são oprimidas pelo próprio conceito de sexo, enquanto produtor de normas cisgêneras, assim como o feminismo fez e faz enquanto produtor de normas androcêntricas/misóginas. Como dito anteriormente, o conceito de sexo só “funciona” perfeitamente para pessoas cisgêneras. Pessoas transgêneras são vistas como uma exceção desagradável a essa lógica de que exista uma coerência necessária entre o gênero designado ao nascimento e o gênero efetivamente performado/identificado. Então, denominamos as práticas e ideias que fazem das pessoas transgêneras pessoas “erradas”, “falsas”, “doentes” e “abjetas” de cissexismo.
                Agora, portanto, não faz mais sentido falar em homens ou mulheres que “querem ser” mulheres ou homens, justamente porque mulheres trans* não são homens e nem homens trans* são mulheres. O que determina é a auto identificação da pessoa, como ela entende seu próprio gênero. Isso também significa respeitar as identidades que vão para além deste binário. Transexuais e travestis podem ser homens ou mulheres ou um entremeio desses dois conceitos. Não existe forma pré determinada como uma pessoa trans* - seja travesti, transexual, ou outra denominação – se identifique. E essa identificação não é necessariamente estática. Então, não pense que se pode presumir o gênero de alguma pessoa apenas por critérios físicos/biológicos. Na dúvida, pergunte como a pessoa gostaria de ser chamada. Isso demonstra que você está disposto a respeitar uma pessoa trans* e com isso não aumentar o coro com as constantes e infinitas vozes que insistem em deslegitimar as identidades transgêneras.
                Então, se agora sabemos um pouco sobre quem são as pessoas trans*, e quanto as cis? Qual é a importância de chamarmos as pessoas cis de cis sendo que elas são as pessoas “normais”? Simples: só entendemos alguma coisa – para então darmos “visibilidade” a ela – se soubermos exatamente o que ela não é. Na língua, já diria Saussure, o valor de um signo (ou palavra, se preferirem) só se dá a partir de relações negativas e diferenciais, ou seja, algo se define através do que “não é”. Sabemos o que é “homem” porque ele se opõe a “mulher” então só vamos entender o que vem a ser “trans” se entendermos o que é “cis”. E chamar uma pessoa de cis de “verdadeira”, “biológica”, definitivamente não é a mesma coisa de chamarmos ela de cis.
                Se continuarmos a usar esses termos biologizantes para nos referirmos a pessoas cis, iremos perpetuar uma lógica cruel e transfóbica, afinal de contas, as pessoas cis vão continuar sendo sempre as primeiras pessoas que nos veem a mente quando dizemos os termos “homem” e “mulher” e com isso, tornamos pessoas trans* “não naturais” e, portanto, próximas ao “errado”. Então para pensarmos a visibilidade trans* temos também que pensar numa espécie de visibilidade e reconhecimento do termo cisgênero. Assim, iremos cada vez mais tornando menos automático tomarmos os termos “homem” e “mulher” como necessariamente pessoas cisgêneras.

                Pessoas trans* só terão visibilidade concreta quando passarem de serem enxergadas como
exceções à categoria humana (como homens e mulheres e por extensão, humanas). Só teremos o reconhecimento da humanidade destas pessoas quando for cada vez menor a ligação entre esse sujeito padrão e universal com a pessoa cisgênera. Assim, a exotificação (quando vemos pessoas trans* sempre como a exceção à regra do que é considerado “saudável” ou “correto”) anda de mão juntas com a invisibilidade. E a linguagem é uma forma de manutenção dessa relação de poder (que produz visibilidades e invisibilidades) e, portanto, mantenedora de relações de opressão. Quando falarmos sobre “homens” e “mulheres” e não pensarmos mais automaticamente em pessoas cisgêneras é o passo necessário para que compreendamos a existência das pessoas trans* e com isso, a necessidade de se falar sobre a situação das pessoas trans*. É com a linguagem que tornamos possível reconhecer as reivindicações das pessoas, e assim, podermos lutar concretamente contra a transfobia e cissexismo.

7 comentários:

  1. Olá Bia! Belo texto. Só não entendi a seguinte frase: "O transfeminismo, mais recentemente, levando junto todo esse histórico de luta feminista, visa entender agora como pessoas trans* são oprimidas pelo próprio conceito de sexo, enquanto produtor de normas cisgêneras, assim como o feminismo fez e faz enquanto produtor de normas androcêntricas/misóginas."

    Será que você poderia me explicar melhor? Como o feminismo pode ser produtor de normas "androcêntricas/ misógenas" ? Obrigada.

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  2. Olá Carla. Então, você interpretou de forma oposta o que eu quis dizer. O feminismo não produz as normas androcêntricas, mas sim, como dito anteriormente, entende sexo como produtor dessas normas, e portanto, problematizando os conceitos que temos sobre gênero/sexo. Eu fiz um paralelismo com o que foi dito anteriormente: assim como o transfeminismo problematiza sexo enquanto produtor de normas cisgêneras, o feminismo problematizou e problematiza enquanto produtor de normas que inferiorizam as mulheres (normas androcêntricas e misóginas).

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  3. Oi, Bia e Jiguilin.
    Gosto das ideias do transfeminismo no que ela se propõe discutir. Vai algumas ressalvas que eu faria: acho que Saussure não é um argumento, ele está ultrapassado em relação a essa noção de identidade pela diferença, que é um princípio básico do estruturalismo, que influenciou, inclusive, a psicanálise lacaniana, que também vejo como ultrapassada nesse item. Ora, a noção de identidade pela diferença deve ser lida como a forma com que o mundo vem encarando, no caso, a questão do gênero como "binária", como você diz. A identidade pela diferença é binária. Acho que a questão do "cis" tem que ser discutida como você discutiu, mas não usando esse argumento estruturalista. O argumento do "estranhamento", por exemplo, me parece mais interessante. Agora uma pergunta, meio que uma dúvida: tudo bem que o blog aqui fala sobre a linguagem, mas as palavras fazem tudo? As palavras são suficientes para promover a mudança? E outra questão: por que a transfobia existe, ou melhor, como ela surgiu historicamente, já que ela é um equívoco, uma miopia e não responde aos fatos sociais de gênero? quais os fatos concretos que permitiram que ela passasse a existir?

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    1. Esqueci de falar sobre a questão das "palavras". Certamente a mudança na linguagem por si mesma não é capaz de destruir a transfobia. Mas eu acredito que a luta contra a transfobia passe sim pela linguagem (como tudo passa, aliás) e é fator necessário para luta, mas não suficiente. Sobre porquê a transfobia (ou qualquer outra coisa, aliás) surgiu, acho que eu não teria condições de responder. Alguns autores apontam (no caso do feminismo) que a origem do patriarcado tem correlações com o surgimento da propriedade privada e como transfobia é mais uma manifestação do patriarcado, da pra considerar sim essas perspectivas. Mas eu não me importo muito com essa questão da origem. Prefiro observar como a transfobia se dá hoje mesmo, e como pensar formas de resistência. Achei curioso você falar que a transfobia "não responde aos fatos sociais de gênero". Não usaria esses termos, afinal, a transfobia não responde alguma coisa, ela, ao invés, produz várias coisas, inclusive produz e reproduz conceitos de gênero/sexo que marginalizam as pessoas trans*. Sobre os fatos concretos, boa pergunta. Acho que todo mundo está tentando descobrir rs.

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  4. Oi RJ. Então, não acho que esteja tão "desatualizado" assim. Primeiro, cis/trans* não são identidades a priori, são posições políticas em primeiro lugar, e também são palavras. Eu sei que eu poderia utilizar outros autores que falam sobre alteridade e identidade e isso seria bastante interessante mesmo, mas talvez o uso de Saussure (e até mesmo o aparente caráter "arcaico") se justifiquem porque a discussão mesmo entre cis e trans* só começou agora. Muitas (a maioria mesmo) das pessoas não sabem o que significa cisgênero, e pessoas cis não sabem que são cis. Acho que fica meio complicado falar sobre identidade se essa dicotomia cis-trans* nem ao menos é tida como existente. Nesse sentido, é muito mais fácil discutir outras dicotomias como homem-mulher, branco-negro, burguês-proletário justamente pois os dois "lados da moeda" são amplamente reconhecidos pela pessoas (ou presentes na memória discursiva). Então acho interessante falar em Saussure nesse caso, na teoria do valor, pois a oposição que comumente se faz entre trans-normal não tem o mesmo valor da que eu (e o transfeminismo) propõe entre trans-cis. E essas duas formas de se entender essa dicotomia tem reflexos e implicações políticas.

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  5. Oi, Bia. Sou eu de novo, o Rafahel. Bom, em relação à questão da linguagem e das questões históricas, o próprio Foucault fala bastante, só que, é isso, ele se pauta principalmente na questão discursiva, mas traz bastante dados históricos. Enfim, acho que a leitura dele sobre a clínica médica é interessante, acho que a própria noção de "doença" que Canguilhem também critica está no bojo da discussão sobre a patologização de certos gêneros e de certas sexualidades. Tenho minhas ressalvas também em relação à Foucault, mas é muito bom. Por fim, incito mais a discussão: por que você acha que a sociedade procura controlar os corpos?

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    1. Oi RJ. De novo com perguntas difíceis rs. Então, acho que não sou a melhor pessoa pra falar sobre o "porquê" da sociedade controlar os corpos (ainda mais em um breve comentário), acredito que existam vários autores que falem sobre isso e que eu ainda precisaria estudar sobre isso. Mas talvez passa dar alguns pitacos.

      Acredito que exista um controle de natureza cissexista+misógino porque isso gera inúmeros privilégios para o grupo de homens cis/héteros (nestes recortes). Acho válido pensar também como o machismo e o racismo são apropriados pelo capitalismo a fim de se manter uma maior exploração econômica sobre esses grupos. Esses privilégios são produzidos e reproduzidos já fazem bastante tempo pela ideologia. Existe uma estrutura que reproduz machismo+transfobia que é bastante naturalizada, de forma que se não nos damos conta através de uma reflexão dos discursos/práticas que reproduzimos, certamente estaremos reproduzindo essas opressões e garantindo esse controle dos corpos, que acontecem em diversos âmbitos. É como se existisse uma lei da inércia, onde todos tendemos reproduzir os discursos hegemônicos a menos que nos desautomatizemos deles. Essa reprodução pode se tornar especialmente cruel na medida em que as classes oprimidas acabam por reproduzir os mesmos discursos que as oprimem. Por isso, não é a toa que precisamos do feminismo e do movimento negro, por exemplo.

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