quinta-feira, 12 de abril de 2012

O que nos revela o povo hadza: o desejo do linguista

Existe uma curiosidade entranhada nos homens por sua origem que descortina todo um desejo daquele que vai a busca de uma resposta.
 Com as línguas e a linguagem isso não é diferente: “qual é a origem da linguagem?” já indagaram muitos investigadores desde sempre. 
“Como o homem aprendeu a falar?”
As hipóteses são diversas, assim como seus pressupostos e implicações. Como pano de fundo, notamos o desejo do investigador (em corroborar sua teoria, em manter seu estado de classe, em se projetar sobre o outro).  
Um exemplo de hipótese e desejo pode ser ilustrado por uma matéria na revista de divulgação científica National Geographic em uma edição que aborda o povo hadza, da Tanzânia. Vocês podem ler o conteúdo em espanhol na íntegra aqui ou a síntese em português aqui. Embora não se trate de um investigador, mas sim de um repórter, o desejo é muito semelhante ao daquele que se encontra na academia, como veremos em outros exemplos que ainda discutirei.
Michael Finkel é um jornalista que se aventura por 15 dias junto aos hadza na região centro-norte da Tanzânia, próximo ao lago Eyasi. A matéria traz um relato sobre suas impressões de convivência com aquela gente.
O tom da reportagem não é dos melhores, aqui o desejo do repórter se difere um pouco, mas não muito, ao do investigador, porque há a necessidade direta de um interlocutor-consumidor. Assim, a curiosidade deve ser o gatilho que faz com que a revista seja vendida.

A reportagem se abre com o seguinte mote: 


·         “[Os hadza] No cultivan la tierra, no crían ganado y viven sin reglas ni calendarios. Llevan una existencia de cazadores-recolectores que apenas ha cambiado en 10.000 años. ¿Qué saben ellos que nosotros hemos olvidado?”

·         Trad minha: [Os hadza] não cultivam a terra, não criam gado e vivem sem regras e sem calendários. Levam uma vida de caçadores-coletores que não mudou em 10.ooo anos. O que eles sabem que nós já esquecemos?

O linguista já acostumado com os fatos de língua não seria tão ingênuo ao ponto de dizer que uma etnia poderia viver sem regras. Aqui nos deparamos com o erro grotesco de que Finkel não percebe que ele e os hadzas não compartilham das mesmas regras.
Quanto ao uso de calendários, o próprio corpo do texto traz a contradição. O autor menciona seu primeiro encontro com um hadza como exitoso:

“quando chegasse a data prevista para a minha vinda, três semanas mais tarde. Passadas três semanas, quando eu e a intérprete chegámos ao mato, lá estava o filho de Onwas, Ngaola, à espera. Aparentemente, Onwas observou as fases da Lua e, quando achou ter passado tempo suficiente, mandou o filho dirigir-se à árvore”.

Mas uma vez percebemos que códigos de medição de tempo não são compartilhados entre visita e visitante.
O que aproxima o desejo do jornalista ao desejo do acadêmico aparece na segunda parte do mote, uma indagação talvez também feita pelos linguistas:  os hadza conservariam vestígios sobre a origem do homem ou sobre a origem da linguagem? O que eles sabem que nós esquecemos?

Neste momento, o que se faz é objetificar o sujeito pesquisado. O investigador/jornalista se coloca numa posição privilegiada e significa/captura o outro em sua linguagem própria.  Os hadza se tornam, assim, os exóticos, os que despertam curiosidade (e a centelha da origem do próprio jornalista/investigador) e, o mais grave, se transformam nos primitivos.
A academia está repleta de estudos de mesma monta. A Genética aliada à Linguística se esforça em desvendar a origem do homem. Recentemente saiu um estudo elaborado em seis universidades (pasmem) europeias que se intitula: Hunter-gatherer genomic diversity suggests a Southern African origin for modern humans. Na divulgação publicada em “El país da Espanha podemos sublinhar: 

Los bosquimanos del sur, hablantes de lenguajes clic -donde las consonantes suenan como besos y chasquidos de fastidio-, revelan una variedad genética interna mucho mayor que cualquier otra población humana actual. La razón es que toda la humanidad actual proviene del sur de África -y no de Etiopía, como se pensaba-, y que los actuales hablantes de lenguajes clic son los herederos en línea directa de nuestros primeros padres.

Trad. minha: Os bosquímanos do sul, falantes de línguas com cliques – em que as consoantes soam como beijos e muxoxos-, revelam uma variedade genética interna muito maior que qualquer outra população humana atual. A razão é que toda a humanidade atual provêm do sul da África- e não da Etiópia, como se pensava -, e que os atuais falantes de línguas com cliques são os herdeiros em descendência direta aos nossos primeiros pais.

          Em abril de 2011, foi publicado um artigo na Science, Phonemic Diversity Supports a Serial Founder Effect Model of Language Expansion from Africa, escrito por Quentin Atkinson, da Universidade de Auckland (Nova Zelândia), em que propõe um modelo que assume a origem da linguagem como originária no sul da África e a partir daí ela se difunde pelo planeta. Atkinson chega a esta conclusão depois de analisar os fonemas de 504 línguas espalhadas pelo mundo. O australiano conclui que os idiomas mais distantes da África têm menor quantidades de fonemas (o resultado é questionado). 
 Mais uma vez,  os tanzanianos, etíopes etc são postos nessa posição de exóticos e guardiães do segredo do outro.
                Todas essas incursões mostram o desejo de seu executor: a busca por uma essência. E as implicações da pesquisa se reflete de maneira muito diferente para sujeito-pesquisador e para sujeito-investigado. Enquanto estes ganham o aspecto exótico, primitivo, aqueles levam o mérito (da tentativa de) elucidação da questão da vida: qual a essência das coisas/do homem?
                No fundo, tais pesquisas não passam de um grito agonizante do pesquisador que engendra mais preconceitos, através do discurso cientificista, entre grupos humanos. É agonizante porque são meras especulações bastante refutáveis e que jamais nos trará o passado de volta (a língua é imaterial), a não ser que se considerem povos como primitivos.
                A hipótese de Sapir-Whorf  é revisitada: será que a linguagem não molda o pensamento de seu povo? Será que maneiras diferentes de pensar não implicam em práticas culturais distintas? Por que os hadzas assim como os pirahã não expressam quantias maiores que 3?
                Talvez porque o ouvido daquele que dá significado à fala de seus experimentandos não esteja afeito a todas as diferenças. Eis o paradoxo do linguista (já anunciado por Milner, de Lemos, etc): o linguista é um sujeito falante e da língua não pode se abster para sua análise.
                Assim, mais uma vez o que resta é apenas o desejo.
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