segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Calhordice

Aproveitando esse período de eleições, vou mostrar.lhes como se manipula um discurso de campanha através da linguagem, sobretudo, desde seu aparato formal.
O texto, escrito por Miriany Amaral, é uma resposta a um desses e-mails circulados no período eleitoral.


Mensagem veiculada por e-mail:


O Diário do Nordeste,CE, publicou, em sua página 10, de 8 de outubro de 2010, o seguinte: “CIRO: MISTIFICAÇÃO DO TEMA ABORTO É “CALHORDICE”. Primeiro, fez bem colocar a palavra entre aspas, pois é uma “CALHORDICE” do coordenador da campanha da senhora DILMA no Nordeste, pois a palavra não faz parte da língua portuguesa, pelo menos não está nos dicionários...;  e segundo, a senhora Dilma, em declaração pelo Jornal Bom Dia  Brasil, tratou do assunto referido e se ela é uma CALHORDA  não fica bem para seu correligionário classificá-la desta maneira.






AURÉLIO diz: calhorda é: “uma pessoa desprezível, impudente, ordinária e o HOUAISS afirma: “sinonímia de pulha”. O coordenador foi muito infeliz em sua expressão, pois além de atacar a sua candidata chamou, de modo grosseiro, bispos, pastores e todos aqueles que pensam que o ABORTO é um tema sério, pois pensam que se encontra em JOGO A VIDA.

Pela posição que ocupa, caberia ao coordenador da campanha da senhora DILMA pedir desculpas da agressão aos que combatem o ABORTO. Seria um ato de elegância.

Como o coordenador que foi escorraçado da eleição e agora volta, submisso, atrás de sobras  de cargos e postos chamaria então o Presidente da República que declarou ontem (7-out-2010) que a “POLÍCIA BATE EM QUEM DEVER BATER”:
“arbitrário, absolutista, autocrático, autoritário, cesarista, cesarístico, discricionário, ditatorial, dominador, dominativo, opressivo, opressor, prepotente, tirânico”? Ou seria apenas UMA “CALHORDICE” do presidente, o que o chamaria de modo grosseiro: uma pessoa ordinária.


A POLÍCIA NÃO É PARA BATER E SIM PARA PROTEGER O CIDADÃO.

O PEIXE MORRE PELA BOCA E O HOMEM PELA LÍNGUA.


***


Resposta de Miriany Amaral

Olá Sérgio!

Demorei a responder porque não tive tempo antes (e creio que nem terei agora) de responder devidadamente o texto que me mandou.

Para começar, quero comentar a respeito das considerações sem fundamento feitas sobre a palavra "calhordice"

Sou formada em Letras pela Unicamp e atualmente curso graduação em Linguística e nesse semestre em especial estou cursando uma disciplina chamada "Lexicologia e Lexicografia", que simplificadamente falando é o estudo das palavras de uma língua. Como especialista em Língua Portuguesa, eu posso garantir a você que a palavra "calhordice" existe sim na nossa língua. O fato de ela não estar no dicionário (aliás, tenho quase certeza que quem escreveu esse comentário consultou na verdade um minidicionário e não "o" dicionário Aurélio mesmo), não implica a não existência dela. Tome como exemplo a palavra "gostei". Se você procurar no dicionário não vai encontrar essa palavra, entretanto qualquer falante reconhece o significado dessa palavra numa frase como "Eu gostei do filme que vi ontem". Se procurarmos no dicionário comum (o mini), encontraremos apenas a palavra "gostar" que é o verbo na sua forma infinitiva, sem flexão.




Ora, como o próprio texto apontou, o dicionário Aurélio registra a palavra "Calhorda" que é um adjetivo. A partir de "calhorda", forma-se então (por um processo chamado derivação sufixal) o substantivo "Calhordice", a partir do acréscimo do sufixo "-ice" que serve exatamente para transformar adjetivos em substantivos. Veja os exemplos:

Adjetivo                      Substantivo
Chato                            Chatice
Idiota                             Idiotice
Babaca                          Babaquice

Que coincidentemente são todos referentes a formas de insulto. Teria muito mais a dizer a você para demonstrar a "autenticidade" da palavra "Calhordice", mas acho que já deu para comprovar a existência dela. Caso ainda não esteja convencido, me avise que eu e dou mais "provas", ok?

Em segundo lugar, como professora de redação e revisora de textos profissional, quero dizer que esse pequeno texto em letras grandes e em negrito tem graves problemas de coesão e coerência, a começar pela falta de inteligibilidade do primeiro parágrafo. Qual era a intenção desse trecho? Chamar Dilma de Calhorda? Dizer que o Ciro a chamou de Calhorda? Dizer que Eles chamaram de calhordas as pessoas que são contra o aborto? Seja lá qual era a intenção, nenhuma dessas foi bem sucedida. A começar pela interpretação equivocada da declaração MISTIFICAÇÃO DO TEMA ABORTO É “CALHORDICE”.

Ao fazer essa afirmação, Ciro não chamou ninguém de calhorda. A palavra "calhordice" nessa frase remete à palavra Mistificação. O que Ciro quis dizer, portanto, é que devemos tratar o tema "aborto" de modo objetivo ao invés de deixar as morais religiosas tomarem conta da discussão. Discutir o tema do aborto apenas por um viés moral/religioso é que seria, segundo Ciro, uma calhordice (e sabemos que ele tem razão, uma vez que retomemos a História e analisemos como foi difícil separar Estado de Igreja).

Além da interpretação inadequada, como tinha dito antes, o trecho tem problemas graves de coesão, tanto dentro do parágrafo como no texto como um todo. Um exemplo de problema de coesão dentro do parágrafo é o trecho "tratou do assunto referido" que, além de estar mal colocado, dificultando a leitura, é ambíguo por poder se referir tanto à Dilma quanto ao jornal. Outro problema é o trecho "e se ela é calhorda". Porque ela seria calhorda? Onde está dito isso no texto?

Tomando o texto como um todo, podemos observar que cada parágrafo trata de um assunto diferente e não "amarra" as informações. Sendo assim, fica difícil apreender qual era a intenção real de quem escreveu. O texto começa com a afirmação de Ciro, comenta a palavra "calhordice", e muda bruscamente de assunto fazendo uma associação errada entre a fala de Ciro e a pessoa da Dilma. No segundo "parágrafo"  vem a citação do Aurélio, que também está deslocada, uma vez que o tema calhordice já tinha ficado para trás e não é retomado posteriormente. E no final o texto termina com uma afirmação do presidente que não é sintaticamente relacionada com nenhuma das ideias colocadas anteriormente (mais um problema de coesão dentro desse parágrafo pela falta de definição do sujeito do verbo "chamaria")
Bom.. acho que eu já me prolonguei muito, embora ainda teria muitas incoerências e imprecisões a ser apontadas nesse texto.

Antes de repassar um email "sensacionalista" como esse, procure verificar o conteúdo do mesmo, porque este email é completamente vazio de sentido. A única coisa que dá para entender disso tudo é que você e/ou o autor desse texto pretende falar mal da Dilma, mas não sabe como fazer isso, então enfeita, floreia, enche de "blablablá", mas nãos diz coisa-com-coisa, o que alíás é típico dos Tucanos que usam a ignorância das pessoas para disseminarem informações falsas através do caráter apelativo que empregam em suas declarações.


Espero que você tenha paciência e inteligência suficiente para ler todo esse email, pois dediquei um bom tempo a ele e não gostaria de ter esse trabalho perdido.

Aguardo sua "réplica",

Miriany


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