quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Turista na língua


Detesto o turismo. Detesto, sobretudo, os brasileiros turistas.
Com todas as ressalvas e entendendo a diversidade do país, temos de convir que no tipo brasileiro a corrupção está instaurada. Temos palavras que oficializam essa nossa conduta: “malandragem”, “jeitinho”. Expressões também: “jeitinho brasileiro”, “tirar vantagem” etc.
No Brasil, é um absurdo que você pense no bem coletivo antes de pensar no bem individual. Para ilustrar isso, basta lembrar do comportamento do motorista no trânsito ou lembrar de quantas vezes, fazendo um mea culpa, furamos uma longa fila. A corrupção, do mais baixo ao mais alto rango, é uma tradição (também) brasileira. Digo “também” porque diversos países latino-americanos dividem conosco essa característica.
Aliar este caráter ao “fazer turismo” dá um resultado muito daninho. O turista brasileiro quer tirar vantagem de todos os momentos de sua viagem. Ele não perde tempo. Quer ver o belo e somente o belo. Quer desfrutar da boa culinária local. Quer badalar.
Dormir bastante num passeio turístico: nem pensar. Não se pode “perder” nenhum segundo.
Por ser assim, considero o turismo como uma forma de pilhagem. O turista saqueia os benefícios locais e zarpa dali deixando sua sujeira.
O mais chato de tudo isso é que ele volta para a sua casa sem ser modificado pela experiência, já que ele não vivenciou o lugar e tentou enxergar o destino com o seu próprio olhar.
Antes de comentar o que a lingüística tem a ver com isso, vou dar um exemplo que para mim é comum.
Muitos brasileiros me perguntam como eu consigo viver no Paraguai, um país tão pacato, com uma língua de índios e com hábitos alimentares estranhos.
Em Assunção é comum ver as ruas invadidas por brasileiros, afoitos por visitar todas as atrações turísticas, por conhecer a noite assuncena e, se ainda sobrar tempo, comprar os baratíssimos eletro-eletrônicos (e ultimamente tenho visto alguns estudantes-empreendedores que chegam ao país para fazer uma pós a distância, mais barata, mais rápida e que ainda tem validade no Mercosul). A estes mal informados, o passeio vai ser nada prazeroso: as atrações turísticas da capital podem ser visitadas em um dia, a noite da capital só existe no final de semana e os produtos baratos não são vendidos na capital (esse é o resultado do estereótipo que fazem os brasileiros do Paraguai como o país do contrabando).
Assunção não é um lugar para ser consumido. Você pode até tentar consumir Assunção, mas vai voltar decepcionado para casa.
É que aqui você tem de abrir mão, pelo menos um pouquinho, da sua cultura e da sua visão de mundo.  
Amigo, não se hospede em um hostel, mesmo que você pense que lá é o lugar de gente descolada. Lá não haverá nenhum paraguaio, a não ser a dona do lugar (que não fala guarani e que não toma tereré). Num hostel em Assunção você vai aprender muito da cultura americana e saberá que na América eles falam inglês. Vai aprender muito da cultura alemã. Vai aprender muito da cultura brasileira.
Amigo, não ande de táxi. Você vai perder a oportunidade de comprar uma “rica chipa” dos vendedores ambulantes.
Amigo, não visite só museus e shoppings. Os mercados populares são um show à parte.
Mas esses conselhos lhes dou num tom bem brasileiro. Você aproveitará MELHOR seu passeio se seguir meus conselhos.
Agora vai a dica de ouro: tenha olhos para a diferença. Entenda que ali a cultura é outra.
Contudo, ter olhos para a diferença não é garantia de que você sairá transformado. Como diria uma grande lingüista: “o reconhecimento da diferença, no sistema capitalista, não implica sua aceitação”.
Posso reconhecer que eles são diferentes, mas não quero aceitá-los. Os paraguaios são exóticos, porque o exótico é o outro. (A palavra “exótico” guarda até hoje o etnocentrismo na linguagem: ex-ótico, aquele que está além do meu campo de visão, ou seja, o outro). Como posso aceitar aquilo que é exótico? Com tanta história europeia sobre os índios como poderei aceitar esses canibais, despudorados e incivilizados?
Perceber que há diferenças, por outro lado, apaga o fato de que há muitas semelhanças entre brasileiros e paraguaios. Mas isso pouco importa, o enfoque sempre tem de recair na diferença!
Esse é o turismo praticado pelos brasileiros aos países inferiores. Veja aqui, o turismo brasileiro praticado aos países superiores.


Sobre a língua:
O turista brasileiro, dado a sua escassa alteridade, tem muita dificuldade com a língua no Paraguai. A falta de alteridade faz com que o indivíduo procure sempre os correspondentes na sua língua materna. E aqui me desculpem, terei de citar uma passagem linda de um texto de Revuz: “o que se estilhaça ao contato com a língua estrangeira é a ilusão de que existe um ponto de vista único sobre as coisas, é a ilusão de uma possível tradução termo a termo, de uma adequação da palavra à coisa”.
Como o espanhol tem muito léxico em comum com o português, o turista brasileiro não se desespera tanto. Ele sequer abre mão de seu português, arranha bem pouco no portunhol. Ele vai se zangar quando um paraguaio lhe falar em guarani.
A cosmovisão guarani é quase que completamente opaca ao brasileiro. E o termo a termo não vai rolar mesmo.
Mas todo o embaraço se dá porque o brasileiro acaba sendo um turista na língua, ele também quer cometer a pilhagem na língua.
Mas como aprender um idioma vai além de um consumo, não há um curso e nem um método que vá fazer alguém aprender milagrosamente um idioma estrangeiro, a frustração sai à baila. E o Paraguai se torna um país detestável: sequer ele pôde entender algo de guarani.
Ainda bem que o guarani está longe de pertencer ao mercantilismo idiomático, ele continua sendo ainda uma língua do povo.
Muitos brasileiros odeiam o Paraguai. E eu só tenho isso a declarar: Rohayhy eterei, che Paraguai!

9 comentários:

  1. Conhecer o Paraguai ao qualquer país que seja também te abre a possibilidade de conhecer "outros países" através de experiências de pessoas nativas ou que simplesmente conheceram os locais e que estão com você fazendo o mesmo que você: passeando. O hostel é uma das melhores opções, principalmente porque é um lugar onde se concentra a maior quantidade de pessoas da sua mesma idade se você for jovem e preços acessíveis. Alem do mais, o hostel é um local onde as pessoas estão de braços abertos para você e com vontade de explicar a você o que você precisa saber pra aproveitar da forma que você quiser, seja ir a uma feira, um shopping, uma floresta ou uma boate.

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  2. e que o que tem que ficar separado e único continue assim ! e que de jeito nenhum vire moda! Viva o Guarani!!!

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  3. Dieguinho sempre revolucionando os meus pensamentos...

    Vc nao ia me levar ao Paraguay este mês? Não combinamos e eu fiquei só na vontade...

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  4. Você PRECISA conhecer minha mãe. rs

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  5. Caro, fui uma vez apenas ao Paraguai. Fui para aumentar a cota de compras. Odiei a agitação e queria sair logo dali. Nas lojas, tive mais contato com os chineses do que com paraguaios. Seria bem legal, acho, conhecer esse outro lado de que fala, mas creio que o Paraguai, pelo menos esse lado, esteja tão estigmatizado que seja estranho alguém dizer que fará turismo por aí. Gostei bastante do seu texto. Gostei de ver minha ex-professora citada também. Mandei um tweet pedindo um e-mail de contato seu. Abraço.

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  6. Oi, prof. Bauru...
    Poisé, os brasileiros não conhecem o Paraguai. Vou falar disso no próximo post, q já está na forma.
    Meu e-mail ta aí do lado.
    Um abç
    Jiquili

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  7. O preconceito sobre os países latinos existe em todo o continente americano, o que acho estranho é que alguns destes países latinos se sentem superiores ao ponto de pensarem-se europeus. O preconceito sobre o Brasil também existe, talvez pela exclusão da língua. E assim vivemos, cada povo se achando e sempre procurando um defeito no vizinho. C'est la vie! A minha segunda mãe é nascida no Paraguai, filha de índia com baiano e a visão que tenho é rica em cores, principalmente a cor do aconchego.

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  8. Adorei a ideia da pilhagem da língua! Nunca fui ao Paraguay, mas adoraria ver a cara de um turista ouvindo guarani e querendo sair correndo!! kkkkkk

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